Wilson Ferreira, CEO da Vibra: “Faz mais sentido, aqui, ter veículo híbrido”

Wilson Ferreira, CEO da Vibra: “Faz mais sentido, aqui, ter veículo híbrido”

16 de fevereiro de 2022

por Roberto Rockmann, especial para a Agência iNFRA

À frente da Vibra Energia (ex-BR Distribuidora), depois de ter comandado a constituição da CPFL Energia como holding e a virada operacional da Eletrobras, Wilson Ferreira Junior aceitou o convite para assumir a transformação da Vibra Energia, líder no segmento de distribuição de combustíveis no Brasil.

O desafio será manter a liderança, diversificar o modelo de negócios, ganhando presença em comercialização de energia elétrica, participar da abertura do segmento de gás natural e contribuir para soluções de energia para os clientes corporativos. A empresa avalia neste momento se ingressará no segmento de GNL (gás natural liquefeito).

O mercado de distribuição de combustíveis tem uma parcela expressiva fora das grandes bandeiras. O mercado brasileiro de distribuição de combustíveis passou, entre 2014 e 2019, por um movimento de desconcentração, de acordo com estudo da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) publicado ano passado.

A fatia das quatro maiores distribuidoras (BR, Ipiranga, Raízen e Alesat nas vendas de diesel e gasolina) caiu de 74,2% para 67,45% na gasolina; de 64,7% para 59,4% no etanol; e de 82% para 74% no diesel entre 2014 e 2019. A desconcentração, nos últimos anos, coincide também com a entrada de novos agentes no setor. Desde 2018, estrearam no mercado brasileiro, por meio de aquisições de empresas regionais, PetroChina, Vitol e Total.

A transição energética está chegando e, para manter a liderança e obter novas receitas, a empresa está firmando várias parcerias estratégicas. A transformação não está apenas nos grandes clientes, mas também nos postos e na percepção dos consumidores. A ideia é avançar em lojas e em produtos para os clientes que vão até os postos. Nesta entrevista exclusiva, Wilson destaca os principais pontos da empresa, uma das 20 ações mais negociadas na B3.

Roberto Rockmann – A Vibra recentemente adquiriu a Comerc. Em dezembro, vimos a aquisição da Focus pela Eneva. Quanto a comercialização de energia elétrica vai representar da sua receita em cinco anos? O que ela agrega?
Wilson Ferreira, CEO da Vibra – Mesmo que eu tivesse esse número, não posso dar um guidance desse tamanho. Mas, se você pegar o tamanho do mercado livre no Brasil, você tem 32% do volume transacionado de energia nesse segmento. Nossa expectativa é de que, até 2025, fruto da regulamentação com a queda de limites, esse mercado represente ligeiramente 50%, um crescimento importante, quase 40%. Essas são as empresas que podem ser livres. Segunda coisa: tem também um movimento de geração distribuída, que é cada vez mais relevante. A compra da Comerc está ligado a tudo isso. As empresas estão cada vez mais interessadas em gestão. Fazíamos isso de uma forma muito leve com a Targus (comercializadora de energia elétricaadquirida em 2019 com uma carteira de mais de 200 clientes), mas a Comerc se criou com isso, com perspectiva de gestão do consumo, desenvolveu equipamentos para gestão de energia elétrica e gás, para informar ao cliente se ele pode migrar com vantagem. Ela tem um relacionamento de consultor com os clientes.

É um mercado que vai crescer muito e muito pulverizado e ainda tem a abertura de gás natural e ela tem autorização desse mercado. Com nosso balanço, podemos financiar essas posições mais longas. O que vai determinar a eficácia é a capacidade financeira e o relacionamento, temos os dois. Nós temos 18 mil clientes que consomem combustíveis e lubrificantes, uma parte deles pode ter interesse em ofertas mais completas de energia. Fizemos uma avaliação: 60% deles não está no mercado livre, temos uma possibilidade de avançar, uma parte deles terá essa liberdade com a flexibilização da regulação de tensão.

A conta de energia elétrica está se tornando cada vez mais cara, com encargos chegando até ao mercado livre. Autoprodução é um nicho que deve continuar crescendo. A Comerc ajuda nisso também?
A Comerc tem em carteira um pipeline de 2 GW de projetos de energia e solar para entrar nesses quase cinco anos. Estamos de olho nesse segmento. Vamos oferecer isso. Temos 8 mil postos e 900 já têm GD, porque a conta de energia é um custo relevante dos custos operacionais. A proposta de valor nossa é ser parceiro da transição energética.

O setor de gás tem vivido os primeiros passos de uma abertura, com a ampliação de fato.
A abertura do setor está 20 anos atrás do setor elétrico, ela está no começo. Cerca de 90% dos nossos clientes corporativos está fora do grid de gás, não é atendido por uma distribuidora. Então terá de ter uma alternativa de atendimento de GNL. A Vibra é uma empresa de logística, possui 95 bases de operação no Brasil, temos uma frota de seis mil caminhões especializados em transporte de combustíveis, uma parte para os postos de gasolina e outra para os clientes. Teremos de oferecer a uma parte desses 90% de clientes uma opção de GNL, não temos uma alternativa, mas estamos conversando e trabalhando nisso. Faremos porque entendemos que o gás natural é um dos combustíveis da transição; ele emite menos. 

Essa parceria será anunciada em 2022? Vocês também têm interesse em investir em terminais de GNL?
Nós estamos avaliando nesse momento e espero anunciar isso em 2022.

Vocês estão vendo outro elo de gás natural?
Estabelecemos uma parceria forte com a ZEG no tema do biometano, há fabricantes de caminhões que estão disponibilizando esse equipamento. Nós somos o maior fornecedor de GNV, mais de carro leve do que pesado, mas se vê um movimento importante do biometano como combustível que possa ser usado no transporte rodoviário de carga. Essa parceria com a ZEG é para produzir 3 milhões de metros cúbicos por dia até 2025.

Como se vê a eletrificação da frota no Brasil, que tem particularidades, como o etanol? Elevada à máxima potência, ela significaria o fim do modelo tradicional de negócios da Vibra.
O Brasil tem particularidades mesmo. A frota brasileira é boa parte flexível: dois terços dela é flex, os veículos pesados usam em boa parte biodiesel e tem 27% de álcool anidro na gasolina. Cerca de 20% do total de combustível total já é biocombustível. Somos os segundo maiores produtores de etanol no mundo. Nosso nível de emissão por quilômetro rodado é um dos mais baixos do mundo. A matriz elétrica é uma das mais limpas do planeta: 70% da emissão do mundo é para produzir energia, no Brasil é 6%. Na Europa, há uma boa frota de veículos a diesel, um grande emissor. Para a frota de veículos como a deles, ir de gasolina ou diesel para o elétrico pode fazer muito sentido. Tem de ter em mente que, para produzir um carro elétrico e suas peças como bateria, consome-se muita energia elétrica. Se pegar um veículo elétrico na Europa em substituição a diesel e gasolina e olhar não apenas o que ele vai deixar de emitir, mas o que ele emitiu para ser fabricado, e comparar com o Brasil, com matriz limpa e biocombustível, faz mais sentido aqui ter um veículo híbrido. O nosso vai emitir menos que o elétrico na Europa. No Brasil, nós não fabricamos, importamos e não temos escala ainda para fabricar.

Isso implica uma penetração desses veículos mais lenta no Brasil que em outros países. Do que a gente já viu, o que entra, deve ser dois terços híbridos e um terço elétrico. Não parece que isso vai mudar. Em São Paulo, há vantagens como o híbrido, que é mais barato e tem vantagem de não participar no rodízio. Ao fim da década, imaginamos que tenhamos uma entrada de 10% a 20% de veículos, que podem ser híbridos e elétricos. Nossa frota de veículos leves será a gasolina e na frota de veículos pesados terá a competitividade de etanol. Para produzir etanol, tem resíduos da cana, pode fazer cogeração; a linhaça pode ser usada no biometano. Esse biocombustível deve ganhar espaço, por isso acreditamos que ele será o principal combustível da década, fizemos a parceria com a Copersucar.

Como você olha esse mercado de distribuição de combustíveis e refinarias, que tem passado por transformações? No Brasil, ele é ainda pulverizado. Podemos ver consolidações?
Esse mercado claramente muda bastante por conta de eficiência de operação. Somos a maior rede de postos, temos 8.200 postos, temos 27% desse mercado, é um mercado que está metade com bandeira e metade sem. Acabamos de testemunhar o episódio da Petrobras, que não conseguiu atender a todo mundo. Não sei se você sabe, mas nos transformamos no maior importador aqui no país, é o segundo ano. Para garantir o suprimento à sua rede, precisamos ter complementação. Montamos aqui essa estrutura para a importação. Neste ano, nosso plano é ter uma trading de derivados, para fazer uso de importação e otimizar processos. O Brasil é um dos quatro mercados do mundo, se a gente importa 20%, então isso é relevante. Isso pode acionar esse mercado e ter volume maior e barganha. Essa atividade fica integrada à importação, para ter garantia à rede.

Esse é um negócio de escala. Há uma tendência à consolidação natural, a nossa é a única rede que cresce no Brasil, é em cima de postos de bandeira branca. A vantagem que o bandeira branca tinha que se perdeu. Nós estamos de transição energética para um posto de combustível para de energia. O que atrai a preferência é o posto mais iluminado, que tem meios de pagamento mais eficientes, que tem programas de fidelidade, lojas de conveniência. Na Europa, 50% dos postos têm lojas, na Ásia, 70%. No Brasil, menos de 20%. Por isso operamos acordo, um JV, com as Lojas Americanas. O posto de energia terá de ter recarga.