Volta do La Niña e aquecimento do Atlântico devem frustrar chuvas e prolongar a crise hídrica

Ludmylla Rocha, da Agência iNFRA

Dois fenômenos meteorológicos combinados devem afetar o regime de chuvas de 2021/2022: o La Ninã, no oceano Pacífico, e o aquecimento do oceano Atlântico ao longo do próximo verão. Para a Climatempo, embora ambos tenham efeitos diferentes, o resultado será a redução de chuvas na região Centro-Sul do Brasil ao longo do próximo período úmido, previsto para começar a partir de novembro, período em que a crise hídrica atual começaria a aliviar.

Em entrevista à Agência iNFRA, a COO da Climatempo, Patricia Madeira, pontuou que há 80% de chance de o esfriamento das águas do Pacífico acontecer [La Niña]. E, caso o fenômeno se confirme, haverá efeitos sobre as chuvas a partir de dezembro. “A gente já vai ter chuva abaixo da média em dezembro, janeiro, fevereiro…”, diz. 

Isso significaria um segundo período úmido seguido sem chuvas, agravando a situação de escassez de água no país. A meteorologista declarou, porém, que o próximo La Niña será mais fraco e com menor duração que os anteriores. Ainda assim, impedirá a recuperação total dos reservatórios quando combinado com a alta de temperatura do Atlântico.

“Essa água vai ser reposta, mas não no volume que seria necessário para reverter todo esse quadro de deficiência que a gente tem agora”, afirma, em referência ao menor índice pluviométrico na área dos reservatórios das hidrelétricas do SIN (Sistema Interligado Nacional) de energia elétrica desde 1931.

Ela explica que o aquecimento das águas do Atlântico faz com que o oceano concentre as chuvas, que deixam de vir para o continente. Segundo a meteorologista, ainda não é possível identificar as razões nem a dimensão dessa elevação da temperatura marítima. O fenômeno, no entanto, demostra o impacto dos oceanos sobre as condições climáticas, reforça.

Efeitos regionais
Para Patricia, a recuperação da chamada “caixa d’água” do país – em referência aos limites de Minas Gerais e Goiás, onde concentram-se os principais reservatórios – será especialmente afetada. “Para chover ali naquela região durante o verão, a gente precisa que as frentes frias provoquem as chamadas ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul). Esse é o fenômeno que realmente faz a diferença nos reservatórios. Essa conjunção de Atlântico e Pacífico não é boa para a formação de ZCAS”, explica.

Haverá efeitos também no Norte. “A gente teve neste ano a cheia do Rio Negro, que bateu altura recorde, e isso deve se repetir no começo do ano que vem”, disse, ressaltando que haverá grande volume de chuvas nos estados da região amazônica do país.

No Nordeste, pode haver mais chuvas e, consequentemente, impacto nos ventos, o que afeta a principal fonte de geração de energia elétrica da região. “Os primeiros quatro meses de 2022 não devem ser muito favoráveis para eólica porque a gente vai ter mais chuva do que o normal naquela região”, disse em referência a Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte.

Isso se dá porque é preciso que os ventos atinjam determinada velocidade para movimentar as turbinas, algo que não costuma acontecer em meio às chuvas. Ela pondera, no entanto, que a Bahia não deve ser afetada na mesma proporção.

Na região do Pantanal, a preocupação é para este semestre. “A situação é muito semelhante à do passado, com expectativa de bastante queimada, rios baixos. O transporte de carga que tem nas hidrovias será prejudicado até o final do período seco, depois começa a chover para lá para outubro e novembro, e melhora devagarzinho”, afirmou.

El Niño
A expectativa no começo de 2021 era de que ocorreria o El Niño no período úmido 2021/22, quando há o resfriamento das águas no Oceano Pacífico, provocando precipitações acima da média na região Centro-Sul do país – fenômeno contrário à La Niña. O El Niño traria abundância de chuvas, aliviando o cenário de escassez hídrica, mas as previsões não se confirmaram, e agora há a tendência de novo período seco.

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