“Últimos leilões de energia foram uma tragédia para o Brasil”, diz presidente da Abragel

“Últimos leilões de energia foram uma tragédia para o Brasil”, diz presidente da Abragel

20 de julho de 2018

 

Jade Abreu e Leila Coimbra, da Agência iNFRA

O presidente da Abragel (Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa), Luiz Otávio Koblitz, acredita que os resultados dos últimos leilões de energia são “uma tragédia para o Brasil”.

Segundo o executivo, fontes de geração como biomassa e PCH (pequenas centrais hidrelétricas) – que são exploradas por empresas que a associação representa – vivem uma competição desleal por parte de outras fontes limpas, mas que são intermitentes, como eólica ou solar.

Para Koblitz, não é calculado o valor correto dessas fontes intermitentes nos leilões já que, quando apresentam falhas na geração, operam com o diesel, que custa oito vezes o valor da energia eólica, por exemplo.

Koblitz também criticou a forma como foi feito o substitutivo com o novo modelo do setor elétrico (PL 1.917/15). Ele afirma ser a favor da modernização das regras atuais, porém, alega que a consulta pública foi seletiva com as contribuições e que o novo modelo é feito com pressa, sem o tempo ideal para diálogos.

“Acho que está sendo feita de forma muito açodada e creio que tem muita coisa lá que precisa ser melhor discutida. Não somos favoráveis a esta aprovação. Não desta forma. Não queremos ser taxados de que não somos modernos. Não é isso. Modernismo não é fazer de qualquer maneira”, afirmou o executivo em entrevista à Agência iNFRA.

A seguir os principais trechos da conversa:

Como avalia os leilões de geração?
O último foi uma tragédia para o Brasil. A matriz energética no Brasil está sendo feita de forma errada. No último leilão compraram apenas 17% de energia boa: biomassa e PCH (pequenas centrais hidrelétricas). Foi muita eólica.

Por que uma tragédia? 
Por algum motivo, foram privilegiadas outras fontes. Só para se ter uma ideia, o somatório dos últimos três leilões (A-4, de 4 de abril; A-4, de 18 de dezembro de 2017, e A-6, de 20 de dezembro de 2017) a gente chega ao seguinte resultado: PCH vendeu 7%; biomassa vendeu 10%; solar, 27% e eólica, 56%. Quando soma solar e eólica, que são fontes intermitentes e que têm muito diesel rodando para complementá-las, dá 83%. O meu entendimento é que há uma grave distorção.

Por que não estão comprando tanto de PCH e biomassa? 
É uma questão de preço: solar e a eólica têm preços menores. Mas quando você olha todo o óleo diesel que tem que ser colocado para gerar na hora que essas fontes não produzem, as fontes ficam muito mais caras. O preço de venda deveria ter também o valor da geração a óleo.

O que poderia ser feito para corrigir isso? 
Nós estamos, ultimamente, procurando as entidades para mostrar o nosso descontentamento, sobretudo porque acaba não sendo justo. Estamos procurando os diversos órgãos para um bom diálogo, para mostrar a nossa visão sobre isso. Estamos indo ao Ministério de Minas e Energia, na ANEEL, EPE, ONS e CCEE. Mas até agora não me mostraram uma razão que realmente pudesse justificar a diferença.

Leia também:  iNFRADebate Live: Minfra estuda reequilíbrio nos contratos de concessão do setor portuário

Em termos de comparação, quais seriam os preços da complementação com diesel? 
É muito mais caro. Pegue o exemplo da eólica. Ela gera 45% do tempo. Os outros 55% alguém tem que entrar no lugar dela. Ou será que alguém vai desligar a luz de casa nesse momento? E o diesel opera com cerca de 8 vezes o preço da eólica. Basta ele operar 25% que o somatório disso ficou extremamente caro.

O que o senhor acha do novo modelo, especificamente do PL 1.917? 
Ninguém pode ser contra a modernização, mas nós somos contra alguns aspectos que estão lá. O primeiro é essa velocidade de desobrigar as distribuidoras a estarem 100% contratadas. Quando essa obrigação for desaparecendo, não é o mercado livre que vai fazer a expansão. Se nós errarmos no planejamento do que vai ficar agora a cargo do mercado livre, o que vai acontecer é racionamento.

Não concorda com a proposta de abertura ao mercado livre?
Pregam que o mercado livre irá baixar o preço, mas isso não é verdade. O mercado de energia precisa ser regulado. Eu acho que da forma como pretendem fazer, quem atua no mercado livre vai ter um ganho maior ­– sobretudo comercializadoras, e eu não consigo ver as grandes vantagens de médio prazo no preço. Hoje, a energia no mercado livre é mais barata. Em compensação, a energia que está no mercado livre não paga a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), que são todos aqueles encargos que existem e que custam cerca de R$ 80 por megawatt-hora. As pessoas saem do regulado para o livre como um oportunismo para poder se livrar daquilo e a conta da CDE, que é a mesma, fica com os que ficaram.

Então você é contra o novo modelo?
Essa reforma precisa ser feita, mas não da forma que está, mas muito mais estudada. É uma reforma que precisaria ser feita em um tempo maior. Talvez em um governo novo, para se ter quatro anos. Então, eu tenho muito receio das coisas não muito bem-feitas e não muito pensadas, porque depois você entra em risco regulatório ou segurança jurídica, e assim por diante. Acho que está sendo feita de forma muito açodada, e creio que tem muita coisa lá que precisa ser melhor discutida. Não somos favoráveis a esta aprovação. Não desta forma. Não queremos ser taxados de que não somos modernos. Não é isso. Modernismo não é fazer de qualquer maneira.

O que o senhor acha da privatização da Eletrobras, tanto das distribuidoras quanto da holding? 
Acho que ambas deveriam ser feitas. Eu sou totalmente a favor da privatização. Falam que isso vai aumentar a tarifa, mas os prejuízos são muito maiores na situação atual. Com a privatização, haverá uma gestão melhor, com menos ou com nenhuma interferência política.

Leia também:  Com um misto de otimismo e cautela, setor aguarda regulamentação da Conta-Covid pela ANEEL

Como o senhor avalia a gestão do ministro Moreira Franco, e também do ex-ministro Fernando Coelho Filho? 
O Coelho foi um dos grandes ministros que eu conheci. Ele tem um poder de articulação enorme. No meu entendimento, ele teve um foco muito grande na reforma do setor elétrico, mas os problemas do nosso dia a dia ficaram de lado. Esse dia a dia tem o problema do GSF e um aprofundamento melhor da matriz. O Moreira Franco começou outro dia desses. Não deu para sentir. Eu acho que ninguém ainda abordou com maior dificuldade a matriz. A gente precisa fazer um exercício para olhar nas contas: o que está gastando e, se olhar nas contas, a gente define a matriz.

É sabido que o GSF é um dos maiores problemas do setor. Qual é a expectativa para o GSF? 
Se o projeto das distribuidoras conseguir ser aprovado com o GSF, viva! Passaremos a fazer as contas e a resolver. O GSF é muito importante porque ele atinge vários agentes, uns que estão para receber, que geraram e não recebem e outros que nem recebem mais porque não adianta gerar e não receber. É um mercado de curto prazo. Ele está sob liminar, não é uma dívida, mas se conta com ele para pagar quem gerou. Então isso é uma distorção muito grande no mercado. Com todo esse tempo que já passou com o mercado travado, vai ocorrendo uma falta total de credibilidade. Não houve uma sensibilidade muito grande para se resolver porque se cobrou dos geradores hídricos muitas coisas que não era culpa deles.

O cenário atual é de eleições. Vocês pretendem se reunir com os presidenciáveis para pleitear essa mudança? 
Hoje, esse cenário ainda está muito embrionário. Nós não vamos adotar uma posição política pró algum candidato ou contra outro. Mas eu acho que na medida que as probabilidades se definam, existe um comitê que nós vamos procurar e passar isso para ver se a gente influencia. A associação quer se antecipar. Ainda está muito turvo. Queremos procurar os coordenadores daquela área e, se eles quiserem, ouvir e mostrar. Ainda no período das eleições. Até porque é o período que eles estão mais abertos. Eles ficam mais acessíveis.

Qual é a expectativa para o próximo leilão?  
Temos uma expectativa muito grande e também uma preocupação muito grande. Nós temos mil megawatts no leilão. Da última vez, de mil, compraram menos de cem. Estamos fazendo palestras, conversando com especialistas para mostrar essa situação. Isso vai gerar constrangimento, mas é preciso fazer isso. Com o preço certo seria possível vender entre 50% a 60% do que está no leilão. A nossa expectativa é vender pelo menos uns 600 megawatts