Temperatura recorde e estiagem pressionam preços da energia e surpreendem setor

Temperatura recorde e estiagem pressionam preços da energia e surpreendem setor

7 de outubro de 2020

 Nestor Rabello, da Agência iNFRA

O período prolongado de temperaturas altas e estiagem, além dos sinais de retomada da atividade econômica, fizeram o preço médio do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) subir acima do esperado na maioria dos subsistemas, revertendo o cenário previsto anteriormente pelos analistas do setor elétrico.

Usado como referência para formação de preços, o PLD para as regiões Sudeste/Centro-Oeste, Sul e Norte aumentou 52% no período de 3 a 9 de outubro, ficando em R$ 261,89 o MWh (megawatt-hora), e 3% para o Nordeste, ficando em R$ 164,86 o MWh. A previsão inicial dos especialistas era que o PLD ficasse em cerca de R$ 100,00 o MWh em 2020.

“Você tinha dois meses atrás, realmente, uma expectativa de preços mais baixos para outubro e novembro, dado o cenário hidrológico vislumbrado no fim de julho e fim de agosto”, afirmou o diretor técnico da PSR, Bernardo Bezerra, à Agência iNFRA.

O cenário que combina uma onda histórica de calor no país, a frustração nas previsões hidrológicas para este ano e o aumento inesperado do consumo colocaram o setor elétrico em estado de atenção para o mês de outubro, conforme afirma o especialista.

“Esse mês de outubro é considerado como o mês mais crítico para se fazer previsões, pois é quando começa a nova janela hidrológica. O recado é que temos que ficar muito atentos para o que vai acontecer nas próximas quatro ou cinco semanas”, aponta Bezerra.

De acordo com as previsões do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para outubro, a afluência deve registrar o terceiro pior desempenho para o mês em 90 anos no subsistema Sudeste/Centro-Oeste. O cenário de escassez fora do esperado deve se estender pelas demais regiões, mantendo a pressão sobre os preços.

Pegos de surpresa
Agentes do setor elétrico foram pegos de surpresa pelas incertezas resultantes desse contexto. Edvaldo Santana, diretor-executivo da Neal e ex-diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), afirmou ter tido suas expectativas revertidas em relação ao que imaginava anteriormente quanto aos preços no mercado livre.

“Confesso que o aumento do PLD, da maneira como aumentou nas últimas duas semanas, surpreendeu um pouco”, disse à Agência iNFRA. “Não esperava”, completou. Ele, contudo, acredita em uma reversão nas recentes previsões hidrológicas apresentadas pelo ONS.

“É meio preocupante. Por enquanto, o cenário como um todo está sem previsão de grandes chuvas. Espera-se que, no fim do mês, essas perspectivas tenham melhorado. Como estamos em outubro, a situação preocupa, mas não tanto”, ressalta.

Volatilidade do PLD e térmicas
Diante deste contexto, boa parte dos reservatórios estão em níveis abaixo do esperado e mais usinas termelétricas têm sido despachadas para atender à demanda, que passa a crescer, como forma de preservar o armazenamento das hidrelétricas.

Na avaliação do gerente de Preços e Estudos de Mercado da Thymos Energia, Gustavo Carvalho, os fatores adversos contribuem para o aumento das incertezas, levando a um aumento não só dos preços, mas da volatilidade do PLD.

“A gente tem uma atualização de previsão por mês fechado de afluência baixa e carga alta, e a expectativa, também, para semana que vem de aumento de 35% de geração térmica, o que pressiona o preço”, afirmou à Agência iNFRA.

“Não só essas incertezas de carga e início do período úmido, mas também a localização e intensidade da chuva – onde vai ser e a real intensidade que ela vai ter – faz com que o PLD tenha tido grande volatilidade no curto prazo”, ressalta o analista.

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