Setores de eletricidade e gás natural ainda não se encaixam, diz Kelman

Setores de eletricidade e gás natural ainda não se encaixam, diz Kelman

25 de agosto de 2021

Ludmylla Rocha, da Agência iNFRA

Jerson Kelman, especialista em hidrologia e recursos hídricos e ex-diretor geral da ANEEL (Agência Nacional da Energia Elétrica), avalia que os setores elétrico e de gás natural ainda não encontraram uma forma de se complementar plenamente.

Em entrevista à Agência iNFRA, Kelman disse que os atuais problemas de fornecimento a usinas térmicas abastecidas com o insumo são um déja vu para quem tratou do mesmo problema em 2006, na época em que estava no comando da agência reguladora do setor elétrico.

Em seu livro “Os desafios do regulador”, ele dedicou um capítulo ao tema, que batizou “A batalha do gás”. “Eu saí brigando com a Petrobras, com o ministério, com o ministro. Briguei com todo mundo, porque era uma vergonha aquilo. E criei lá [na ANEEL] uma série de penalidades severíssimas para que isso não se repetisse. Estou um pouco espantado que está se repetindo”, disse.

Ele conta que chamava algumas usinas de “térmicas de papel” porque pareciam disponíveis, mas não estavam. “Lá atrás, a duras penas nós aprendemos que a penalidade por não ter gás tem que ser altíssima. Você tinha que ‘fuzilar’ o cidadão que diz que tem uma usina, que na hora que vai ser necessário ela funcionar, se na hora H ela não funciona.”

Sobre o risco de racionamento, Kelman diz que “não perde o sono por isso”. “Se ao longo de agosto, setembro, outubro, a gente for vendo que a demanda cresceu muito e, que, portanto, os reservatórios estão esvaziando mais rápido do que imaginávamos, pode ser que chegue em novembro e tenha que fazer alguma coisa na linha também de diminuir o consumo de energia, quer dizer, racionamento”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista:

Agência iNFRA: O governo fez uma proposta de programa para redução de consumo para grandes consumidores. O que o senhor achou dela?
Jerson Kelman: Os estudos feitos tanto pelo ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] quanto pela PSR mostram que, para 2021, a principal preocupação está no atendimento da ponta lá para novembro. Então essa medida preventiva de verificar com os grandes consumidores a possibilidade de deslocar consumo da hora da ponta para a hora da madrugada faz todo o sentido. 

À medida que o reservatório vai esvaziando, a queda [d’água] vai diminuindo. Se a queda cai pelo esvaziamento, com menos quantidade de água, você produz menos potência. Pode ser que, na hora do pico do ar-condicionado, às duas horas da tarde num dia quente, falte potência e aí você tem um apagão, que é algo distinto do racionamento. 

A preocupação principal é com esses apagões por falta de potência, e menos, não é que não exista, mas é uma preocupação menor, com falta de água nos reservatórios em termos energéticos. Então foi uma medida correta do governo, sem dúvida nenhuma, do lado da gestão da demanda.

A indústria calcula um, dois meses de aprendizado, de adaptação para poder fazer a redução do consumo. O senhor considera esse prazo adequado?
É, porque a preocupação principal com a potência é para os meses de outubro e novembro. Então as coisas começaram no momento certo, é isso mesmo. A questão vai ser em novembro, quando acabar o ano hidrológico, e aí começarem as novas chuvas. Aí espero que o sistema se recupere.

O governo está falando também em fazer um programa nessa linha, mas para os outros consumidores, residenciais.
É, pode ser. Eu acho que não é pecado reconhecer que tem uma seca terrível, que está afetando o Chile pior que nós, que está afetando a Califórnia. Não somos só nós, é um problema que se verifica em vários lugares e, nessa circunstância, é bom que todo mundo saiba. Se puder não ligar a máquina de lavar roupa às duas da tarde, ligar às 11 da noite, poxa, faça isso. É uma postura cidadã, de colaborar com o benefício de todos.

Mas a dúvida é como financiar esse tipo de desconto, porque a gente está vendo a ANEEL discutir um novo aumento da bandeira tarifária 2.
É, pois é… Já temos bandeiras agora por causa das térmicas ligadas. Mas aí é um problema de energia, não faz diferença você mudar o horário do consumo. Ninguém está falando ainda de diminuir o consumo em termos de megawatt-hora por mês. O que está se falando é mudar a curva de consumo, da carga ao longo do dia. Então, eu não vejo motivo para dar incentivo financeiro para a dona Maria mudar o horário de ligar a máquina de lavar roupa dela das duas da tarde às duas da noite, basta explicar que é uma postura cidadã fazer isso.

Leia também:  Análise: crise de energia aumenta a gravidade em agosto

Agora, o grande industrial não. Ele vai ter que pagar hora-extra, mudar sua logística de produção e aí se justifica um pagamento. E esse pagamento tem que ser feito o melhor possível. Eu não estou acompanhando os detalhes disso, mas a maneira certa é você fazer um leilão para ver entre os grandes consumidores, quais são os que se dispõe a deslocar a carga com o mínimo custo possível, porque esse custo será pago pelos consumidores.

Na proposta, a ideia não é fazer leilão. As empresas vão oferecer o que eles podem atender dentro dos critérios estabelecidos e aí o ONS e a CCEE [Câmara de Comercialização de Energia Elétrica] vão aceitar ou não a oferta.
É algo parecido, porque o ONS vai ter a dimensão de qual é a modificação da curva de carga que ele quer que seja feita. E o governo tem a missão de fazer isso ao mínimo custo possível. Poderia ser um leilão, mas não vai ser, tudo bem. Não estou acompanhando essa questão da demanda, estou muito mais olhando a gestão da oferta.

Finalizando essa parte da demanda, o senhor acha que, neste momento, a gente tem que discutir o deslocamento do consumo ao longo do dia e não necessariamente a redução total do consumo, é isso?
Isso tudo depende muitíssimo da evolução da economia. O principal dado aqui não é a hidrologia, porque nós estamos num período seco e a hidrologia é muito previsível até novembro. Do lado da produção eólica, solar, tem muita variação, mas não é tanta assim em termos médios ao longo dos meses. A principal incerteza é do comportamento da demanda, que depende essencialmente da atividade econômica. 

Agora, mesmo que tenha que diminuir e não só mudar a hora do consumo, que é o racionamento, ele não é muito profundo. As simulações mostram que com pequenos arranjos você se safa. Uma coisa é você cortar 30% o consumo de energia de um país, ou 20% como foi em 2001. Outra coisa é cortar alguma coisa em torno de 5%, é mais gerenciável.

Então, em 2021, em termos energéticos, não quer dizer que estamos certos de que não vai ter problema. Não é isso, mas eu não perco o sono por isso. Se ao longo de agosto, setembro, outubro, a gente for vendo que a demanda cresceu muito e, que, portanto, os reservatórios estão esvaziando mais rápido do que imaginávamos, pode ser que chegue em novembro e tenha que fazer alguma coisa na linha também de diminuir o consumo de energia, quer dizer, racionamento.

No último estudo do ONS estimou-se uma menor disponibilidade de usinas térmicas do que se esperava anteriormente. E o governo está apostando muito nas térmicas para manter a disponibilidade. É necessário rever a estratégia por conta disso?
Essa história das térmicas para mim é um déja vu. Não sei se você conhece um livro que eu escrevi em 2009, chama-se “Os desafios do regulador”. No capítulo oito, de título “A batalha do gás”, eu falo sobre o que ocorreu em 2006. Eu conto direitinho como foi e é muito parecido com o que está agora. 

Tinha térmicas que eu chamava de térmicas de papel, elas pareciam que estavam disponíveis, mas não estavam. Lá atrás, a duras penas nós aprendemos que a penalidade por não ter gás tem que ser altíssima. Você tinha que “fuzilar” o cidadão que diz que tem uma usina, que na hora que vai ser necessário ela vai funcionar, se na hora H ela não funciona.

Então, dos 23.000 megawatts do parque térmico, tem uns 4.000 MW que não estão funcionando por razões variadas. Seja porque estão indisponíveis, seja porque não têm gás. Na realidade, você tem que contar com 18.000 megawatts mesmo, 18.500 megawatts, alguma coisa assim.

Mas há alguma forma de realocar? O que pode ser feito?
Em 2006, eu estava no comando da ANEEL. Então eu saí brigando com a Petrobras, com o ministério, com o ministro. Briguei com todo mundo porque era uma vergonha aquilo. E criei lá uma série de penalidades severíssimas para que isso não se repetisse.

Estou um pouco espantado que está se repetindo. Li que a Bolívia diminuiu o fornecimento de gás a térmica de Cuiabá. Poxa, na hora que a gente precisa, aí eles fecham. Enfim, tem uma governança aí na área da Petrobras que eu pensei que estava sendo resolvida, mas parece que não. E eu não quero dizer que são os mesmos problemas, porque eu não estou acompanhando agora o trato com a Petrobras, mas me parece um déja vu.

Há relatos de que temos uma oferta no limite do que a gente precisa em termos de gás. A gente recorre mesmo ao óleo combustível ou tem alguma outra saída?
Se não tem gás natural é espantoso. Você tem duas térmicas no Ceará. Aí de repente a Petrobras tira o regaseificador de lá. Tá bom, pode ser até que faça sentido, mas se repetiu 2006 no sentido de que nós não conseguimos ainda um arranjo em que o setor de gás e o setor de energia elétrica se encaixem direito.

Leia também:  EPE vê problema em indisponibilidade de térmicas e recomenda revisão da garantia física das usinas

O setor de energia elétrica tem as térmicas a gás para serem ligadas numa situação hidrológica desfavorável. E faz todo o sentido isso. Agora, o setor de gás quando percebe que suas instalações não estão sendo utilizadas pela termelétrica… Nós não conseguimos um mercado de gás complementar ao de energia elétrica. 

Por exemplo, o que seria ideal do ponto de vista conceitual. Suponhamos que nós tivéssemos todos os nossos carros além de flex fuel, também a gás. Então quando as térmicas não estivessem funcionando, todos os veículos poderiam estar funcionando com GNL. E, quando não chovesse, os reservatórios baixassem, aí você passava pra gasolina.

Não só o transporte, porque o consumo de gás natural para produção de energia elétrica é muito alto, e é maior do que se poderia utilizar o transporte. Mas, enfim, se tivesse indústrias que utilizassem o gás natural quando disponível e passasse para óleo combustível quando não chovesse, nós poderíamos ter uma complementaridade entre os dois setores. Essa complementaridade não existia em 2006 e, aparentemente, continua não existindo agora, porque na hora que o gás é necessário para térmicas a gás não estão disponíveis. Tem que converter para óleo diesel, óleo combustível a térmica e não uma indústria que poderia ser bicombustível.

A respeito da rede de transmissão, o ONS foi autorizado a flexibilizar os limites de intercâmbio entre os subsistemas. Quais os efeitos disso? Foi uma medida acertada?
Medida certa. Você tem que olhar o risco de uma forma integrada. Não teria sentido, por exemplo, uma pessoa que está com uma doença gravíssima e precisa tomar um remédio que, em condições normais você não daria por conta dos efeitos secundários, pode levar a tontura ou qualquer coisa assim, mas se a pessoa está na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] você dá o remédio para ela. 

É claro que poder escoar essa energia para segurar a água nos reservatórios aqui no Sudeste faz todo o sentido e se eu estivesse no ONS faria exatamente o que fizeram nessas circunstâncias.

Já há registro de algumas cidades fazendo racionamento de água. Na visão do senhor, como está sendo a gestão do uso compartilhado das águas?
A atuação da CREG [Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética] em termos de gestão de restrições hidráulicas nos reservatórios não tem absolutamente nenhum efeito sobre o uso da água para abastecimento das populações. O abastecimento das populações, portanto, as companhias de saneamento têm sempre prioridade para usar a água. As primeiras medidas que a CREG tomou, a meu ver,  acertadas, foram flexibilizar as restrições operativas dos grandes reservatórios que estavam levando a desperdício de água.

No começo da sua resposta, o senhor falou que não interfere, mas a baixa vazão afeta o abastecimento. Onde essas governanças se encontram?
De tudo que se retira dos rios do Brasil, cerca de 10% são para abastecimento das cidades. É muito pouco. Então, em geral não falta água para abastecer as cidades, falta nível. Aí você coloca uma bomba flutuante e resolve. Quando eu entrei na Sabesp em 2015, nós estávamos no volume morto. Lá eu tinha que explicar que tinha água, que aquela água era boa e não tinha problema.

Pode faltar água nos reservatórios de abastecimento urbano que não são os mesmos da produção de energia elétrica. A não ser as cidades lindeiras aos grandes reservatórios, algumas captam água do próprio reservatório. Essas podem ter problema porque os reservatórios vão encolhendo, não tem jeito, e aí as cidades vão ter que fazer uma instalação de engenharia de levar a tomada d’água mais perto de onde tem água. Então, não há conflito. Não vale a pena misturar essas duas coisas porque são diferentes.

Na entrevista que o senhor deu em junho para a Folha de S.Paulo, o senhor falou que, se nada fosse feito, haveria grandes chances de apagões. Com as medidas que foram tomadas até agora, essas chances se mantêm? Diminuem?
Diminuem, é claro. Essas medidas são exatamente para evitar o apagão, que é o problema da potência. Apagão é como a população vê o problema de potência.