Seca continuará em 2021, mas 2022 deve ter chuvas acima da média, diz CEO do Climatempo

Seca continuará em 2021, mas 2022 deve ter chuvas acima da média, diz CEO do Climatempo

15 de abril de 2021

Nestor Rabello e Leila Coimbra, da Agência iNFRA

O cenário de escassez hídrica que tem atingido recordes nos últimos meses deve continuar crítico neste ano. Mas, a partir de  2022, as chuvas devem voltar, e acima da média – graças ao El Niño – disse o CEO do Climatempo, Carlos Magno, em entrevista Agência iNFRA

Segundo o especialista, a tendência para este ano é de manutenção de um volume baixo de chuvas, especialmente na região Centro-Sul – a chamada “caixa d’água” do país, e que tem sido a mais prejudicada com a estiagem desde o ano passado. 

“A gente está num estado muito crítico porque entramos no período seco com baixa reserva hídrica no Centro-Sul do Brasil, e a tendência é que essa recuperação só venha a acontecer no próximo período chuvoso, a partir do mês de outubro”, disse Magno. “A tendência é chover pouco mesmo, exatamente na região onde precisa chover para manter essa ‘caixa d’água’ cheia”, disse. 

“Certamente vamos enfrentar um período de bandeira vermelha, de estado de atenção para a questão da água nos reservatórios […]. Se eu fosse um técnico que participasse do comitê de decisão do governo, eu certamente alertaria para uma decisão mais drástica”, alertou Magno.

Volume insuficiente nos reservatórios
O país registrou a pior afluência dos últimos 91 anos para o período de setembro do ano passado a março, segundo o CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico). O comitê decidiu manter o despacho de térmicas fora da ordem do mérito para poupar os reservatórios na última semana, diante da previsão de chuvas esparsas no Sudeste e do início do período seco.

Diante desse contexto, Magno aponta que o volume de chuvas previsto para o ano ainda será insuficiente para recompor os reservatórios.

“Mesmo que haja precipitação acima do normal, como o volume esperado para essa época do ano é baixo, não será o suficiente para recuperar os reservatórios. E sim a partir de outubro, acontecendo precipitações acima do normal, poderemos observar uma recuperação [nos reservatórios] de 2021 para 2022”, disse.

2022: Fenômeno El Niño
Mas o fenômeno El Niño deve se estabelecer a partir do próximo ano, revertendo o atual cenário para uma melhora de chuvas no país. Ainda assim, há incertezas sobre o volume dessas chuvas, conforme o especialista.

“Até o fim deste ano, devemos ficar num período de neutralidade. A tendência é o El Niño se estabelecer a partir de 2022. A intensidade dele é que ainda está sendo considerada uma intensidade fraca. Mas ainda é muito cedo para afirmar se ele vai se intensificar ou não”, salientou.

O evento meteorológico acontece quando há o resfriamento das águas no Oceano Pacífico, provocando precipitações acima da média na região Centro-Sul do país. No momento, o regime de chuvas é afetado pelo La Niña, em que ocorre o efeito contrário, de seca nessa região. 

Seca veio pra ficar
De maneira geral, o executivo aponta que o país continuará convivendo com um clima mais seco, conforme tem sido o caso nos últimos anos. Ele atribui isso, principalmente, ao desmatamento na região Amazônica, o que desregula as chuvas no restante do país.

“É uma tendência dessa área que a gente chama de ‘caixa d’água’ brasileira ficar cada vez mais seca por causa do aquecimento global e do impacto da redução da floresta amazônica que vem acontecendo sistematicamente nesses últimos anos. Isso é uma realidade. Então, essa tendência é uma que vamos ter que continuar convivendo com ela”, reforçou. 

Sem atraso nas chuvas
Para o fim de abril, a previsão traçada pelo CMSE é que o armazenamento dos reservatórios dos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste atinja o nível de 36%; o do Sul fique com 61,3%; o do Nordeste, com 66,9%; e o do Norte, com 83% da EAR máxima (energia armazenada). O período de seca tem início por volta de abril, com a fase de chuvas tendo início em outubro.

No entanto, diferente do ano passado – quando houve o atraso para a entrada do período úmido –, a tendência é não haver atrasos para o início das chuvas, em outubro. “Eu não acredito que isso aconteça neste ano. A tendência é que o regime de precipitação fique dentro do normal”, apontou.

Situação preocupa
Agentes e autoridades do setor elétrico têm olhado para a crise hídrica com preocupação nos últimos meses. Com o misto de temperatura recorde e falta de água, o governo tem aumentado a geração térmica, mais cara, o que também tem pressionado as tarifas de energia.

No fim do ano passado, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) retomou o mecanismo de acionamento das bandeiras tarifárias – que aumenta o custo das contas de luz para frear o consumo quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos.

Com esse cenário, está em análise uma alteração dessas bandeiras: a agência propôs um aumento de  21% no valor da bandeira vermelha no patamar 2, de maior custo adicional aos consumidores. O valor passaria dos atuais R$ 6,243 para R$ 7,571 a cada 100 kWh (quilowatt-hora) consumidos.

Ventos no Nordeste
Com o aumento de chuvas previsto para a região Centro-Sul nos próximos anos, a seca deve voltar a se concentrar no Nordeste. Isso, segundo Magno, deve resultar no aumento de ventos na região, onde se encontram os principais parques eólicos do país.

“Nosso grupo de cientistas chegou à conclusão que a tendência é de o vento na região Nordeste aumentar para os próximos dois anos, que nós passamos de certa forma por um período de chuva no Nordeste brasileiro que acabou diminuindo a intensidade dos ventos. Diminuiu e agora a tendência é de aumentar a intensidade dos ventos no Nordeste. Por um lado é bom, porque acaba compensando um pouco a questão de falta de água.”

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