Reservatórios do Sudeste podem terminar o próximo período úmido com apenas 23%, diz ata da CREG

Reservatórios do Sudeste podem terminar o próximo período úmido com apenas 23%, diz ata da CREG

22 de setembro de 2021

Ludmylla Rocha, da Agência iNFRA

Se as chuvas do próximo período úmido apresentarem o mesmo desempenho que tiveram no anterior, os reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste chegarão em abril de 2022 com níveis de armazenamento cerca de 11 pontos percentuais mais baixos do que o mesmo mês de 2021.
 
A projeção foi elaborada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), em conjunto com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), e consta em ata da última reunião da CREG (Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética), realizada no dia 9 de setembro. O documento, no entanto, não detalha se foram consideradas ou não as medidas em andamento para combater os efeitos da crise hídrica no setor elétrico.
 
Neste ano, o subsistema tinha em abril EAR (energia armazenada) de 34,7%, segundo dados do ONS. Pelos cálculos dos órgãos de governo, terminaria o próximo período úmido com 23% de armazenamento, um nível considerado muito baixo para começar o período seco.
 
“Condição preocupante”
Para o ex-diretor-geral do ONS Luiz Eduardo Barata, “o simples fato de chegarmos ao final do período chuvoso, abril, numa condição tão ruim em relação ao que nós temos neste ano é preocupante”.
 
Ele afirma ainda que, na parte de geração, “tudo que se podia fazer em termos de oferta já se fez” e avalia que “em termos de demanda, o que pode ser feito é avançar de uma redução voluntária para uma redução compulsória, caso a adesão aos programas voluntários em andamento seja tímida”.
 
Já João Carlos Mello, presidente da consultoria Thymos Energia, afirma que os leilões de capacidade que serão realizados para incremento do sistema podem contribuir para uma melhora do cenário. Ele avalia, no entanto, que os preços precisam ser melhorados.
 
“A gente achou que os números que foram oferecidos para atrair novos investidores são baixos, porque os novos investidores estão com a meta difícil que é entrar com alguma coisa nova em maio de 2022”, pontua.
 
Para ele, considerando o momento atual, o preço a ser pago tanto nessa medida quanto no programa de redução de demanda para a indústria não deve ser um fator determinante neste momento. Mello avalia também que o volume de economia da indústria obtido junto à indústria em setembro (237 megawatts) foi “baixo”.
 
“Esse é um desgaste desnecessário. Deveria se ter pensado nisso antes para não deixar chegar nessa situação. Agora que estamos próximos do precipício, vamos evitar cair”, conclui. 
 
Melhores condições de operação
Já o ex-secretário de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia e atual CEO da Atiaia Energia, Ricardo Cyrino, avalia que, ainda que haja piora na condição dos reservatórios, a operação do sistema “em tese” estará melhor no próximo ano na comparação com 2021.
 
Ele ressalta o funcionamento de novas usinas térmicas como a GNA I, que entrou em operação na última semana, e o reforço da transmissão por meio da linha Janaúba, no último dia 1º de setembro, que reforça a transmissão na energia elétrica do Nordeste, onde a geração eólica é crescente, para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste.
 
Cyrino afirma ainda que o cenário apresentado pelo ONS é conservador, se considerarmos que os indicadores de chuvas sobre o SIN (Sistema Interligado Nacional) no último período úmido foram um dos piores da série histórica.
 
Pondera ainda que, além das medidas em andamento, há que se considerar o desempenho da economia para pensar a demanda. “A gente está com a inflação alta, o Banco Central sinalizando mais uma subida importante na taxa de juros. Eu acho que a questão da economia pode ser também um pequeno freio do próprio consumo, e isso acaba somando positivamente para que a gente tenha uma condição maior em 2022”, pontuou.
 
Possibilidade de racionamento
Cyrino afirma que é difícil que os operadores do sistema adotem a medida ao longo do período úmido. “Daqui até fevereiro, março, ninguém tomaria uma medida como racionamento porque senão o arrependimento pode ser grande. Colocar toda a sociedade para racionar energia e depois vir uma chuva necessária, então por isso os tomadores de decisão devem estar adiando para ver que quadro se configura até março, abril”, ponderou.
 
A volta do horário de verão
O especialista descarta ainda a volta do horário de verão como estratégia de economia. “Com base no estudo do ONS não existe nenhum benefício, porque o horário de verão, na verdade, não traz economia, ele deslocava o horário. No passado o pico era 18h, e hoje é 15h, porque hoje quem manda mais é o ar-condicionado e no passado era iluminação, chuveiro elétrico, então os hábitos mudaram e o horário de verão perdeu seu sentido”, disse.
 
“É uma medida muito mais de impacto político-social do que de impacto para o próprio setor elétrico”, completa.
 
Barata, por outro lado, avalia que qualquer economia deve ser considerada. “Eu entendo que, por menor que seja a economia, sempre se terá uma economia e deve-se buscá-la”, avaliou.

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