Redução do uso de gás vai necessitar de novo modelo de precificação de energia, diz consultoria

Redução do uso de gás vai necessitar de novo modelo de precificação de energia, diz consultoria

23 de dezembro de 2022

Dimmi Amora, da Agência iNFRA

A redução do uso do gás como combustível vai demandar um novo modelo de precificação para a energia num futuro breve para os países do hemisfério norte, mas não tão distante assim para o Brasil.

É o que alerta André Pinto, diretor-executivo e sócio da BCG (Boston Consulting Group), a partir de estudo realizado internacionalmente sobre o tema pela consultoria. O trabalho, em inglês, está disponível neste link.

A necessidade mais urgente dos países mais desenvolvidos em construir uma solução nova para precificar a energia poderá beneficiar o Brasil, que, para ele, vai sofrer uma pressão menor por essa troca, por ter uma matriz mais diversificada e menos pressão por reduzir emissões.

Para o diretor da BCG, os agentes públicos e privados do setor vão precisar ficar atentos às soluções que forem sendo desenvolvidas nos países que vão precisar mais rapidamente encontrar uma nova maneira de precificar a energia, para adaptá-la à realidade do Brasil, e evitar uma grande instabilidade nos preços da energia.

Pressão contra fósseis
A pressão para reduzir o consumo de combustíveis fósseis vai levar naturalmente ao desuso do gás na matriz energética, num prazo que para André não passará de 2040 nos países mais desenvolvidos, sendo substituído pelas energias renováveis, em especial a eólica e a solar.

Segundo ele, o gás acaba sendo o precificador natural da energia na maioria dos sistemas, na medida que ele tem o valor-teto para preço a ser cobrado e também é, entre os tipos de energia produzidos, aquele que tem o chamado lastro, ou seja, pode ser produzido a partir da demanda. As renováveis não têm controle sobre a produção.

André conta que o trabalho buscou entender os marcos regulatórios de diferentes países para encontrar uma saída para o modelo de preços da energia sem o gás nos próximos anos. Foram identificados três cenários sobre como isso poderia acontecer, todos eles considerados desafiadores.

Cenários
Num primeiro cenário, para o qual ainda não há tecnologia desenvolvida, o gás utilizado atualmente seria substituído por um “gás verde”, que usaria moléculas de hidrogênio com carbono retirado da atmosfera, gerando zero de emissões. 

Nesse cenário, haveria a possibilidade de se utilizar das mesmas infraestruturas hoje construídas nos países para distribuir o gás e um modelo regulatório de precificação também semelhante. O problema é chegar a essa tecnologia, ainda indisponível.

No outro cenário, segundo o diretor da consultoria, a formação de preços seria dada não pela oferta, mas pela demanda de energia. Ou seja, os grandes consumidores é que conseguiriam fazer o controle de preços, utilizando-se da energia em períodos e horários que fossem mais adequados.

“A flexibilidade dessas indústrias seria o regulador dos preços do mercado”, explicou.

O terceiro cenário também depende do que é a grande esperança do setor para os próximos anos, que é a produção de mecanismos robustos que possam armazenar a energia produzida, especialmente pelas renováveis, reduzindo o que ele chamou de “enorme intermitência”, gerando uma grande capacidade para precificar a energia a partir delas.

Falta de direcionamento
Sem soluções tecnicamente viáveis num futuro próximo, André vê como preocupante a falta de um direcionamento dos reguladores para que se possa ter uma fórmula para precificar a energia com a redução do uso do gás nos próximos anos.

Para o Brasil, o cenário será menos preocupante porque a pressão pela troca será menor. Além disso, o país tem dois “precificadores”, o gás e a água das usinas hidráulicas, o que reduz o impacto de uma possível saída do gás. Mas, segundo André, esse cenário também não será por muito tempo. 

O cenário hídrico tem se mostrado instável e o crescimento das renováveis eólica e solar vai aumentar a intermitência do sistema, que vai precisar de alguma produção com lastro, ainda tecnicamente indisponível.

“O cenário lá fora muda em 20 anos. Aqui a pressão vai ser menor. Vamos poder esperar um pouco mais, beneficiar-nos um pouco mais do que já tiver sido desenvolvido, aprender com os erros”, afirmou o executivo.