Recuperação da carga deve ocorrer até 2022, antes do que prevê ONS, avalia CEO da Thymos

Recuperação da carga deve ocorrer até 2022, antes do que prevê ONS, avalia CEO da Thymos

16 de maio de 2020
Guilherme Mendes, da Agência iNFRA

Na semana passada, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) pediram revisão para a carga de energia do SIN (Sistema Interligado Nacional). Em documento enviado à ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), os agentes apontaram que o Brasil pode ter uma queda na carga de até 5 GW médios pelos próximos cinco anos, o que traria impactos diretos nos leilões de energia, planejados pelo Executivo e esperados por investidores.

O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, entende que a recuperação pode ser mais rápida. Em entrevista, ele concorda com a análise dos órgãos públicos de que o ano de 2020 será de busca por uma recuperação da carga energética do país, mas que o horizonte pode ser de expansão, caso previsões de crescimento do PIB mais “ousadas” na casa de 4%, se concretizem – o operador apresentou à ANEEL previsões de crescimento de até 2,9%, em 2024.

Em entrevista à Agência iNFRA, Mello também apontou que a recuperação do consumo ainda em 2020 parte de um cenário moderado, no qual a fase mais aguda da pandemia dure mais 45 dias. Tal retomada, porém, não seria suficiente para tornar o consumo deste ano maior que o do ano passado. Abaixo, trechos da entrevista:

Por que o senhor avalia as previsões do ONS como pessimistas? 
O ONS, a EPE e a CCEE usam um cenário em que temos esta falta de crescimento em 2020 por causa da Covid-19, e a revisão anterior apresentava um empate, a carga de 2020 empatando com a carga de 2019. Nesta [nova revisão], mais baixo que 2019, chegando no final do ano com uma carga menor do que aquela do ano passado. É um ano realmente perdido.

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E 2020 estamos juntos nesta perspectiva. Só que, na sequência, há uma reversão sobre como seria o PIB de 2021, 22, 23 e daí para frente. E essa perda em 2020 fica registrada, na previsão do ONS/CCEE/EPE, de maneira perene até 2024. Com isso, deixaria de se crescer 5 GW médios, como previsto, ficando-se assim até o final do período, em 2024. A hipótese deles é que não haverá PIBs extraordinários em 2022 e 2023, uma recuperação mais forte.

A expectativa é de um PIB mais forte, então?
Meu ponto de vista, do Wilson [Ferreira Jr., da Eletrobras, presente com ele a uma live na quarta-feira, 13, em que o tema foi debatido] e de outros é que talvez haja uma recuperação mais forte do PIB, muito baseada em investimentos de infraestrutura e similares, mobilizando mais a economia.

A gente entendeu que talvez haja um cenário melhor que o previsto pelo ONS, porque seria um cenário de recuperação com PIBs mais ousados, vamos dizer assim, em 2021 e 2022. Passando esta crise, a análise do ONS é de PIB na casa de 2%, e apostamos em PIBs mais fortes para o período.

E mais fortes quanto?
4%.

A mesma expectativa de recuperação vale para o PLD e o preço de mercado?
O PLD (Preço de Liquidação de Diferenças) é de uma influência de seis meses a um ano para a frente. Houve uma queda extraordinária, em relação ao que prevíamos em janeiro – e essa mesma cotação que fizemos em janeira e é revista toda semana, despencou à metade hoje. Por conta de uma hidrologia mais ou menos boa, perto da média, e a questão do próprio mercado, o PLD desabou, e os preços de mercado desabaram em 2020.

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Mas se percebe, ao se analisar uma cotação em janeiro e uma agora, uma queda brutal em 2020, uma queda menor em 2021, e em 2022 quase não há queda nenhuma. Em 2023 e 2024, quase igual. O mercado analisa que a questão dos preços vai se interromper, e esta diferença que está ocorrendo, de preços mais baixos por conta de falta de mercado, se encerra em 2022.

Mercado digo aqui geradores, comercializadoras e afins. Quem oferta energia o faz em um mercado que não tem muita diferença de preços em 2022. São preços convidativos, muito bons, já que há uma redução de preços lá na frente. O mercado não está enxergando, além de 2022, uma diferença de preços muito grande.

Há como prever quanto tempo o consumo leva para retomar seu nível, após uma reabertura gradual?
Indo por um cenário moderado, a nossa perspectiva é que a partir de agosto aconteça uma recuperação, e que se chegue no final do ano a uma carga que seja igual a 2019. As indústrias estão basicamente paradas por não poderem trabalhar – então, quando elas voltarem, é só apertar um botão. E aquelas que trabalham com exportação, ou que já tem um grande volume contratado e comprado, tem uma retomada mais rapidamente. E também o agronegócio, que não para.

Temos uma visão de um segundo semestre de retomada, mas evidentemente eu não sou especialista em saúde, e estou considerando, neste cenário moderado, que este lockdown dure até o final de junho.