Participação do gás no Plano Nacional de Energia é tímida, dizem especialistas

Participação do gás no Plano Nacional de Energia é tímida, dizem especialistas

30 de outubro de 2020

Nestor Rabello, da Agência iNFRA

Com participação mais expressiva de fontes renováveis na matriz energética no âmbito do PNE (Planejamento Nacional de Energia) 2050, a participação do gás natural está subdimensionada no plano estratégico para os próximos 30 anos, segundo especialistas da área consultados pela Agência iNFRA.

Os analistas apontam que, apesar de as termelétricas a gás ganharem mais destaque na estratégia do plano em garantir a segurança do sistema elétrico, as previsões do governo para o aproveitamento do insumo ainda estão tímidas.

Na avaliação do diretor da CBIE Advisory, Bruno Pascon, as considerações feitas no documento a respeito da participação do gás natural aproveitam pouco a projeção de aumento da oferta da matéria-prima no cenário de abertura do mercado.
 
“A questão é que o farol [do PNE] está na direção correta. Mas no meio do caminho você tem, pela primeira vez na história, uma projeção da oferta de gás natural dobrar, e o melhor mercado para utilizar isso é o doméstico. O papel do gás está subdimensionado na matriz energética”, explicou o executivo.

Térmicas inflexíveis
Segundo ele, a adoção de termelétricas inflexíveis, que geram na base, seria necessária para melhor aproveitar o novo mercado do gás e ainda garantir a segurança energética do país em meio a um cenário com mais presença de fontes renováveis.
 
“A gente não está falando que tudo tem que ser inflexível. Eles [o governo] têm que ter na cabeça que o pré-sal só funciona com térmica inflexível porque o gás é associado. Além de trazer parte da expansão com essas térmicas, também se destrava o mercado secundário de gás, que é o de armazenamento”, afirma Pascon.
 
Visão similar tem o presidente da Abraget (Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas), Xisto Vieira Filho, que também critica a menor previsão do nível de participação de geração termelétrica a gás.
 
“A intenção, tanto do PNE como de todos os países, é fazer uma transição para uma matriz energética mais verde, mas tem gente que acha que pode ter uma matriz puramente verde”, aponta o executivo.
 
No entanto, Xisto acredita que o governo poderá rever a representatividade do gás natural nos planos decenais, que trabalham com um horizonte de médio-prazo.
 
“Parte da transição será feita com a graduação da geração térmica a gás para manter os níveis de segurança e confiabilidade. Eu acho que isso que vai ser colocado nos planos decenais de uma forma bem mais detalhada”, diz. “O PNE 2050 é uma referência, uma questão de muito longo prazo”, completa.
 
Nesse contexto, Pascon acrescenta ainda que o uso do gás renovável como energia de transição se torna importante quando há maior protagonismo das fontes renováveis, como forma de equalizar a intermitência dessas geradoras.
 
“Para crescer a economia sem ter falta de suprimento você precisa de uma fonte que não seja intermitente, e a mais barata e limpa é a que vem do gás natural. Há uma oportunidade não só de dar mercado, mas de reduzir custos para a indústria, responsável por cerca de 50% da demanda de energia”, ressalta.
 
Mercado de gás
Atualmente, o projeto que institui a abertura do mercado de gás natural (PL 4.476/2020) está empacado no Senado, e um dos pontos sendo negociados com o governo para viabilizar a aprovação da medida é justamente a previsão das térmicas inflexíveis.
 
Favoráveis às térmicas que geram na base argumentam que elas representam um instrumento importante para gerar demanda e interiorizar o uso do gás natural, expandindo a infraestrutura no país.
 
No entanto, essa previsão não é consensual, e esse ponto, assim como outros – como a desverticalização da cadeia produtiva e a classificação de gasodutos de distribuição –, tem movimentado as negociações em torno do texto.

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