Para onde vai Ciro Gomes?

Para onde vai Ciro Gomes?

7 de julho de 2021

Fábio Vasconcellos*

Quem acompanha com mais atenção as movimentações dos pré-candidatos à presidência na disputa de 2022 já deve ter notado. Desde que contratou, em abril, João Santana, ex-marqueteiro do PT, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes passou a adotar uma nova estratégia no cenário pré-eleitoral na tentativa de construir uma candidatura competitiva no próximo ano.

Nos vídeos coordenados por Santana, o ex-ministro é apresentado como um moderado, enquanto nas entrevistas e lives, vemos mais Ciro que Santana. Embora essas diferenças sejam um pouco esperadas, dada a natureza desses dois formatos de comunicação, o que mais chama atenção é a estratégia geral da pré-candidatura do ex-ministro. Os temas e os alvos escolhidos demonstram uma direção adotada que hoje traz mais dúvidas que certezas.

Ciro Gomes tem procurado atacar fortemente e de maneira muito direta o ex-presidente Lula, com críticas ao envolvimento do PT com a corrupção e os problemas na economia gerados, sobretudo, durante o último Governo Dilma. Nessa lógica, o ex-ministro vocaliza uma percepção de um conjunto de leitores que rejeitam o PT e Lula. Ele tem direcionado sua artilharia também para o presidente Bolsonaro, apontando sua incapacidade para liderar o país e os desmandos na coordenação da pandemia. Inversamente, portanto, mira os eleitores que rejeitam o presidente.

Nessa lógica, o ex-ministro parece interessado em associar a sua imagem ao que muitos chamam de “terceira via”. E aqui surge uma pista interessante. Não sabemos ainda a razão lógica de tal raciocínio, mas lideranças do PDT já
chegaram a afirmar, inclusive, que a disputa de 2022 será, na verdade, entre o ex-ministro e Lula. Seria então uma terceira via com um Ciro repaginado?

As contradições da pré-campanha de Ciro, em um cenário com dois fortes candidatos, aparecem de uma maneira muito geral quando ele ataca Bolsonaro, se colocando no campo da oposição; e quando ataca Lula, se colocando no campo da situação. É um equilíbrio difícil de conseguir e que tensiona, por outro lado, com o lugar de onde o pré-candidato se posiciona politicamente e que historicamente é conhecido.

O ex-ministro está em um partido de esquerda, campo ideológico em que o PT é hegemônico e Lula é figura principal que faz sombras às demais lideranças. Se isso por si só já cria alguma dificuldade de crescimento nesse espectro, na direita, Ciro enfrenta a presença de Bolsonaro e uma massa hoje de eleitores identificados com esse campo ideológico. É certo que uma fatia que votou no presidente em 2018 está hoje interessada em fazer outra aposta, que não seja em um candidato do PT.

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A dificuldade dessa estratégia é que PSDB, DEM e talvez PSD deverão lançar pré-candidatos com foco nesse eleitorado de centro, centro-direita e direita, diluindo a massa de votos disponíveis, e afunilando as candidaturas. E qual o tamanho hoje dos eleitores nem-nem? Isto é, que rejeitam tanto Bolsonaro quanto Lula e que estariam disponíveis a apostar em um terceiro nome?

A pesquisa CNT/MDA, realizada entre os dias 1º e 3 deste mês, identificou que esse grupo gira em torno de 30%. Ou seja, um terço dos eleitores demonstra hoje interesse em votar em um candidato diferente de Lula e Bolsonaro. Dada a proliferação de candidaturas à direita e na centro-direita, é pouco provável, portanto, que um único candidato mobilize sozinho esse contingente de eleitores.

Para onde vai Ciro? A pergunta não é retórica, nem sugere um passeio pela capital francesa. O ex-ministro pode desistir e apoiar PSDB, DEM e PSD ou vai insistir na candidatura a ponto de forçar esses partidos aderirem ao seu projeto?

Como sabemos, é preciso muita cautela quando analisamos pesquisas de intenção de voto com mais de um ano da eleição. Hoje elas expressam muito mais popularidade e ondas de opinião momentâneas do que intenção de voto clara. De todo modo, elas servem para os partidos observarem o cenário e montarem estratégias para viabilizar candidaturas.

A última pesquisa Ipec (ex-Ibope), realizada em junho, mostrou um quadro ainda pouco claro para a oposição feita por Ciro e demais pré-candidatos. Lula é o único candidato cuja soma do potencial de votos (com certeza votaria nele; poderia votar nele) supera o total da rejeição. Ciro e os demais apresentam rejeição maior do que o potencial de voto.

No caso do pré-candidato do PDT, a rejeição é de 49% contra 29% de potencial de voto. Apesar disso, o potencial de voto de Ciro é maior quando comparado a João Doria e Luiz Mandetta. Mas, como observado, estes dois últimos estão muito mais próximos de um discurso de centro-direita, onde há mais votos disponíveis, do que a estratégia de Ciro e João Santana faz parecer. Outro ponto a se destacar. O nível de desconhecimento do eleitorado sobre esses pré-candidatos é maior para Mandetta (37%) e menor para Doria (25%) e Ciro (20%). Ou seja, ainda há espaço para mudança nesse quadro, sobretudo para estes pré-candidatos, mas ela é mais estreita para Ciro e Doria.

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O que esse cenário pré-eleitoral sugere é que o tempo é curto para Ciro mudar a sua imagem e conquistar eleitores que até bem pouco tempo apostaram em Bolsonaro ou se identificam mais com o campo da direita ou centro-direita. Ainda que seja esta a sua única alternativa, dada a hegemonia do PT à esquerda, Ciro não estará sozinho buscando esses eleitores. O ex-ministro precisa ainda se viabilizar a ponto de sugerir capacidade de desempenho melhor que as outras disputas presidenciais que participou.

Em 1998, ele obteve apenas 11% dos votos. Quatro anos depois, não passou de 12%. Em 2018, voltou a apresentar desempenho parecido: 12,4%. Nessa luta, a estratégia de Ciro para 2022 não deve esquecer de um outro detalhe que voltará se repetir no próximo ano. Em todas as disputas presidenciais que participou, havia um candidato de centro-esquerda competitivo: Lula, em 1998, depois Lula novamente em 2002, seguido de Fernando Haddad, em 2018.

*Fábio Vasconcellos é cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da ESPM-RJ.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.