Ofertas da indústria aceitas no programa de redução de demanda chegam a R$ 2 mil o MWh

Ofertas da indústria aceitas no programa de redução de demanda chegam a R$ 2 mil o MWh

29 de setembro de 2021

Ludmylla Rocha e Leila Coimbra, da Agência iNFRA

Empresas do setor elétrico apontam que os aceites do programa de redução de demanda têm variado de R$ 1,3 mil/MWh (megawatt-hora) até R$ 2 mil/MWh. O CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) fechou o mês de setembro com 442 MW (megawatts) aceitos, mas os valores que serão pagos por esta redução não foram divulgados.

Uma das empresas atendidas pela Ecom Energia para participação do programa teve aceites de R$ 1,3 mil/MWh até R$ 1,7 mil/MWh. Já a Esfera Energia destaca dois aceites com preços em torno de R$ 1,6 mil/MWh. A Comerc Energia avalia que ofertas em torno de R$ 1,5 milMWh é o valor médio que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) deve aceitar. 

Agência iNFRA apurou ainda que houve quem conseguisse aceite de R$ 2 mil para um autoprodutor. Teve comercializadora que fez ofertas para clientes no mesmo valor, no entanto, que não foram aceitas pelo operador.

A proposta de redução voluntária é uma das apostas do governo para lidar com os efeitos da crise hídrica sobre o setor elétrico. Com validade até abril de 2022, define que os custos superiores ao PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) sejam pagos via ESS (Encargos de Serviço de Sistema), os mesmos que bancarão o programa para o mercado cativo.

A ideia do governo é gerenciar a demanda nos horários de pico, além de minimizar custos ao optar por comprar energia dos consumidores que, em tese, será mais barata que a que vem sendo gerada nas usinas térmicas.

Preço não é fator decisivo
O programa foi pensado para atender as necessidades de operação do ONS e nem sempre isso se dará por meio das ofertas mais baratas. Por exemplo, se duas empresas de mesmo perfil oferecerem o mesmo volume de energia em locais diferentes, pode ser que o operador aceite a mais cara, mas que esteja num local no qual existe maior demanda.

“A portaria do Ministério, assim como as regras do ONS, poderiam talvez ter definido regras mais rigorosas no aceite ou não. O operador poderia ter definido ‘olha, em momentos de stress do sistema, eu tenho mais interesse em produtos na região de São Paulo, na área Rio e em Brasília’. Poderia talvez ter feito isso, mas isso iria limitar o mercado”, explica o gerente de Energia Elétrica da Abrace (Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres), Victor Iocca.

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Ele diz que, ao longo do programa, tanto o operador quanto os consumidores que participarem poderão entender melhor qual será o ideal entre as necessidades do sistema e as ofertas feitas. “Eu sei que tem uma subjetividade às vezes na decisão do operador, mas esse é o momento da gente aprender, caso aconteça do operador em algum momento aceitar e despachar ofertas que possam ser mais caras frente a outras, ele vai ter que justificar tecnicamente isso, então é nesse momento que o mercado como um todo vai aprender”, avalia.

Velocidade da justificativa
Para Raphael Santana, diretor de Gestão e Energia da Esfera Energia, quanto mais ágil for o processo de justificativa feito pelo ONS, maior será a chance de os participantes adaptarem as ofertas para o próximo mês.

“No primeiro momento em que surgiu a negativa só aparece ‘reprovado pelo CMSE’. Isso quanto a setembro. Se eu tiver a oportunidade de ofertar para outubro de novo, então deveria haver um feedback um pouquinho mais claro, porque aí eu tenho condições de eventualmente, se for preço, por exemplo, conseguir fazer algum ajuste interno pensando em calibrar um pouco mais a oferta para conseguir participar”, opina.

Ele sugere ainda a ampliação dos prazos para submissão de ofertas ou a reabertura de prazo para um novo envio de propostas durante o mês no qual as reduções já estão ocorrendo. “Eu posso ter alguma alteração na minha produção. Acho que ajudaria muito as empresas a avaliarem [a participação no programa]. Se agora eu não consegui, só daqui a um mês vou conseguir entrar de novo”, pontua.

Expectativa para outubro
O executivo explica que alguns consumidores que atendem os requisitos de participação no programa têm optado por ficar de fora. Ele avalia que, dentre os clientes da carteira da comercializadora, pode haver um crescimento no número de ofertantes no mês de outubro, mas nada relevante em termos de volume.

O CEO da Comerc, Cristopher Vlavianos, disse que conseguiu que os clientes ofertassem um total de 70 MW em produtos para setembro, e o volume para outubro já esta maior, de 120 MW. 
Vlavianos disse que o preço médio que o ONS pode aprovar está em torno de R$ 1,5 mil/MWh, mas lembrou que o valor muda diariamente, a depender da oferta e demanda. 

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Retomada da economia “atrapalha”
Um dos maiores entraves à adesão ao programa do governo, segundo as comercializadoras, é a retomada da economia. “Grande parte deles [clientes que podem participar] está num momento de crescimento de consumo, então pensando em termos de produção, avalia que é até interessante em termos de preço, mas como está numa crescente de demanda, no melhor momento desde o começo da pandemia, não faz sentido participar”, explica Santana, da Esfera.

A expectativa é compartilhada por Eduardo Bohn, gerente de Gestão de Consumo da Ecom Energia. “Tem clientes que a última coisa que eles estão pensando é reduzir produção, ele quer mais é retomar os resultados e vender toda a capacidade que ele tem, dado que o mercado está respondendo agora. Essa é uma dificuldade”, diz.

Outro fator são empresas que têm apostado em eficiência energética desde o racionamento de 2001 e, portanto, têm menos disponibilidade de redução num sistema de consumo já eficiente. Ele cita ainda empresas que, motivadas pela alta do PLD, já haviam buscado oportunidades de redução de consumo.

Nova redução de volume mínimo
Ambos sugerem que, ao longo do programa, o volume mínimo exigido seja reduzido de 5 MW médios para 1 MW médio. A ideia inicial do governo era limitar a 30 MW médios, mas a proposta mudou depois da consulta pública.

“Não sei se é o momento correto, precisa ver também o quanto o ONS consegue gerenciar isso, mas me parece fazer sentido diminuir essa régua para um pouco menos. […] Parece-me fazer sentido para capturar mais reduções e alívio para o sistema”, sugere Bohn.

Já Santana pontua que, embora a introdução da figura do agregador tenha contribuído para a adesão de pequenas e médias empresas, ela não resolve totalmente essa questão. “Quando você fala para o cliente ‘você vai participar, mas para isso precisa de mais uma ou duas empresas’, fica aquele receio: ‘Se eu reduzir e o camarada não reduzir, como é que fica?’. Então, de fato, essa questão da redução é realmente uma questão técnica que eles poderiam melhorar”, conclui.