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O bem contra o mal que o eleitor entende

Fábio Vasconcellos*

Desde 2018, o Brasil vive um intenso debate eleitoral nos grupos de família, nas redes sociais e em outros fóruns em que a política de algum modo passou a ser o centro das atenções. Direta ou indiretamente, as discussões giraram quase sempre em torno da figura de Jair Bolsonaro. A eleição do então candidato do PSL, com um discurso antipolítica, de fato representou um ponto de inflexão no Brasil, e demonstrou que, a despeito do desejo de mudança da maior parte dos eleitores naquele ano, havia também brasileiros que se identificavam com bandeiras da direita e da extrema-direita. Bolsonaro soube vocalizar esses sentimentos e expectativas e chegou ao Palácio do Planalto.

Passados quatro anos, o debate permanece em alta, mas hoje reúne um grupo de ex-eleitores de Bolsonaro que expressam alguma dúvida se repetirão a escolha de 2018. Esse é um grupo significativo que ajudou a eleger o presidente e que ele tem buscado reconquistar. Ao afirmar que a eleição não será entre direita e esquerda, mas sim, entre o bem contra o mal, Bolsonaro recupera com outras cores o discurso de 2018, retira da sala o foco no desempenho do seu governo, e mira nos eleitores que o abandonaram após o início do seu mandato.

Entender os mecanismos por trás da escolha do eleitor é sempre uma chave interessante para desenvolver pesquisas ou compreensões ricas sobre os processos de decisão do voto. Não adianta generalizar com a afirmação de que os eleitores de Bolsonaro são todos radicais, inconsequentes ou irracionais. Há mecanismos mais sutis e complexos que fazem parte desse grupo e que ajudam a justificar o voto em 2018, bem como a demonstrar inclinação de repetir essa escolha em 2022.

Embora a amostra, por razões metodológica, não sirva para produzir um quadro mais geral sobre o voto em Bolsonaro em 2022, acho que podemos identificar pistas para entender como alguns eleitores organizam sua compreensão de mundo e a direção do seu voto. Um eleitor de classe média alta com quem conversei recentemente tinha tudo para não votar novamente em Bolsonaro. Tem acesso a informação, depende de políticas que favorecem o funcionalismo público e reconhece que o atual governo não atendeu as suas expectativas de 2018. Apesar desse quadro geral, a banda toca de um jeito menos óbvio.

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Esse eleitor tem uma visão geral razoável sobre os desdobramentos do governo Bolsonaro, em especial durante a pandemia, mas afirma que hoje tem dificuldades para escolher entre Lula e Bolsonaro. Ele votou no capitão em 2018, mas considera que o presidente não foi tão bom quanto esperava. Mas você esperava que ele tivesse um bom desempenho? – pergunto. “Sim”, responde. Mais à frente, acrescenta que, diferentemente de muitos eleitores de Bolsonaro, que se retraíram, continua expondo publicamente que apostou no capitão.

Recuando um pouco mais no tempo, esse eleitor confessa já ter votado em Lula, mas deixou de apostar no PT nas eleições seguintes de 2010 e 2014. Considerava Dilma despreparada para o cargo. Quando a conversa avança para outros temas, o eleitor deixa expressas algumas das suas crenças. Para ele, a turma da esquerda e do PT batem palmas para gays, e disso ele discorda.

Como podemos observar, embora reconheça que o governo Bolsonaro decepcionou, este eleitor tem crenças sobre sexualidade ou direitos individuais que o ajudam a posicioná-lo no quadro eleitoral. Aparentemente, o modelo do voto racional expressaria uma contradição explícita. Se julga negativamente o desempenho do governo, o eleitor tende a migrar para um candidato da oposição. Essa passagem, contudo, não é linear. O eleitor é capaz de buscar atalhos que justifiquem a sua decisão de reeleger Bolsonaro. A visão conservadora de como a vida deve ser orienta, neste caso, a posição política do eleitor, mesmo que ele desaprove o governo.

Essa é uma das razões pelas quais podemos tornar um pouco mais complexa a compreensão do processo eleitoral deste ano. Em tese, esta é uma disputa de avaliação do governo. Pela teoria racional do voto, o eleitor vota retrospectivamente a favor da reeleição do presidente se considera que ele teve um bom desempenho, e vota prospectivamente em um candidato da oposição se considera que ele pode fazer um governo melhor na economia. A teoria psicológica do voto, por outro lado, assume que o eleitor é capaz de reordenar os temas da sua preferência e buscar o candidato que melhor expresse seus valores e crenças, independentemente de razões objetivas como crescimento, desemprego ou renda.

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Esse ponto é fundamental de considerarmos porque a campanha eleitoral servirá justamente para isso. Bolsonaro vai buscar discursos que o recoloquem como aquele candidato que melhor expressa os valores e crenças dos eleitores, boa parte deles com visão conservadora, enquanto Lula e demais candidatos tenderão a focar em questões objetivas como o desempenho do governo. O problema é o quanto isso poderá sensibilizar eleitores ex-bolsonaristas para quem acabar com as “palmas para os gays” é mais importante do que discussões mais gerais sobre políticas públicas ou desempenho do governo Bolsonaro.

*Fábio Vasconcellos é cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da ESPM-RJ.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.

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