“Novo normal” deveria contemplar vazões mais baixas dos rios, dizem especialistas

“Novo normal” deveria contemplar vazões mais baixas dos rios, dizem especialistas

6 de dezembro de 2021

Roberto Rockmann*

Passado o susto deste ano, quando se acendeu o sinal amarelo sobre o abastecimento de energia no horário de ponta durante o período seco, algumas recomendações ganham corpo entre especialistas para reforçar a segurança do fornecimento nesta década.

Uma sugestão é de que o governo use novos modelos que considerem índices de afluência mais conservadores e novos patamares de vazão dos rios, inferiores ao seu comportamento de longo prazo.

Dois dos defensores de uma atualização em relação a esses pontos são Mario Veiga, fundador da PSR, e Jerson Kelman, que dirigiu a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).

“Em 2021, a situação é muito distinta da década de 1970, quando por exemplo eu e o Mario estávamos no Cepel (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica) da Eletrobras. Naquele momento, usava-se o que tinha. Hoje podemos usar informações mais recentes e de um período muito mais extenso. Se o passado mais recente está mais seco que o remoto, usar esse número é adotar uma atitude conservadora”, diz Kelman.

Mario Veiga diz que não há comprovação científica de resultados do impacto da mudança climática para menores vazões de rios e o consequente impacto para o setor elétrico.

“No entanto, a gente mostrou que a opção de menor arrependimento para o sistema e consumidor é assumir que o novo normal são vazões mais baixas. Por esta razão, vamos passar a fazer estudos com vazões ajustadas, e estamos sugerindo a EPE [Empresa de Pesquisa Energética] e ao ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] que façam o mesmo.”

O percentual do novo normal de afluências seria variável por região. No Nordeste, poderia estar em 70%, incluindo a retirada real de água para irrigação, afirma Veiga. O esvaziamento dos reservatórios das hidrelétricas nos últimos meses tem feito muitos pesquisadores usarem ferramentas de satélite para identificar o que poderia levar à dificuldade em ter dados precisos sobre a situação dos reservatórios. Um dos problemas seria que a retirada de água para fins não energéticos estaria sendo mais elevada que a prevista, até com irrigação clandestina.

Como no surrado ditado, crise é uma oportunidade. Planejar com ferramentas precisas e adotar um novo olhar sobre os modelos empregados poderão evitar novos sustos e surpresas nas tarifas. Nos últimos dez anos, o setor já conviveu com três momentos de estresse no fornecimento e bilhões de reais em contas para milhões de consumidores pelo país afora.

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*Roberto Rockmann é escritor e jornalista. Coautor do livro “Curto-Circuito, quando o Brasil quase ficou às escuras” e produtor do podcast quinzenal “Giro Energia” sobre o setor elétrico. Organizou em 2018 o livro de 20 anos do mercado livre de energia elétrica, editado pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), além de vários outros livros e trabalhos premiados.

As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.