Investir em gasodutos é erro estratégico bastante relevante, avalia Omega Energia

Investir em gasodutos é erro estratégico bastante relevante, avalia Omega Energia

11 de maio de 2022

Ludmylla Rocha, da Agência iNFRA

O CEO da Omega Energia, Antonio Bastos, avalia que investir em gasodutos com recursos da PPSA (Pré-Sal Petróleo S/A), como vêm sendo discutido como emenda do PL 414/2021, proposta que trata da modernização do setor, “é um erro estratégico bastante relevante”.

“No momento que nós estamos com as pessoas tendo a renda delas impactadas severamente pela inflação da energia, não caberia nem a consideração de um negócio como esse, porque ele é absolutamente um custo sem qualquer benefício para o consumidor”, disse em entrevista à Agência iNFRA.

Fora essa possibilidade de alteração, Bastos vê a minuta do parecer do relator Fernando Coelho Filho (União-PE) de forma positiva. “Garantir que empresas e fontes compitam para favorecer o consumidor é algo que não precisa de debate, deveria ser amplamente fomentado e apoiado por qualquer agente que queira o bem da sociedade”, opinou.

O CEO também comentou sobre o impacto da guerra na Ucrânia na transição energética, as perspectivas da eólica offshore para a empresa e o andamento das prospecções de negócios nos Estados Unidos. Leia os principais trechos da entrevista:

Agência iNFRA: Como estão as expectativas considerando esse aquecimento do debate da abertura do mercado de energia?
Antonio Bastos: A abertura de mercado é uma bandeira nossa de anos. Nós, ano passado, fizemos um movimento chamado Luz Livre justamente para tentar chamar a atenção da sociedade para a importância de fazer a competição ser a principal ferramenta, a principal alavanca para que nós tenhamos uma energia mais limpa e barata no Brasil, e não o subsídio a grupos de interesse fazendo lobby.

Então, temos trabalhado nisso há muitos anos, com convicção, por fim de subsídio, aumento de competitividade. É algo que a gente persegue muito fortemente. E acho que o PL 414 vai ser um marco importante nesse caminho. Garantir que empresas e fontes compitam para favorecer o consumidor é algo que não precisa de debate, deveria ser amplamente fomentado e apoiado por qualquer agente que queira o bem da sociedade.

Infelizmente, existem grupos de interesse que querem ainda ter reserva de mercado e proteger seus negócios que não necessariamente são competitivos.

A minuta que foi apresentada do PL 414/2021, com o prazo de até 42 meses para abertura, está adequada?
A gente acha que a partir disso vai ter um faseamento natural. A alta tensão não tem por que não abrir nos próximos meses, até por uma questão de tirar a pressão inflacionária que é muito alta hoje sobre as empresas e o Brasil.

O pequeno empreendedor, aquele sujeito que tem até 10 funcionários. Quanto mais rápido ele puder se desonerar e puder optar por uma fonte de energia melhor, tem que fazer. E depois a pessoa física. Então tem aí esses três momentos: alta tensão, depois a empresa pequena e depois pessoa física.

Eu diria que 42 meses para pessoa física talvez seja algo razoável, mas alta tensão e empresas pequenas, nós deveríamos fazer um esforço para que isso aconteça muito rápido, porque é uma solução para desonerar empresas que hoje sofrem muito com a carestia da energia rápida e eficiente.

No 414, nós vemos um momento de avanços: abertura de mercado, competição, certamente baixando o preço e tornando a energia do Brasil mais limpa. Mas você sempre tem aqueles riscos de novos jabutis como a gente viu na Eletrobras. Então, por exemplo, a gente acha que você, como país, apostar num investimento em infraestruturas que vão se tornar obsoletas rapidamente, por exemplo, gasodutos, que é o Brasduto que tem sido discutido, é um erro estratégico bastante relevante.

O Brasduto… tentaram passar na Lei do Gás, não passou. Tentaram passar na Eletrobras, não passou também. E agora voltou esse assunto que eu acho que, no momento em que nós estamos com as pessoas tendo a renda delas impactadas severamente pela inflação da energia, não caberia nem a consideração de um negócio como esse, porque ele é absolutamente um custo sem qualquer benefício para o consumidor.

Mesmo se forem pagos pela PPSA?
Isso é ficcional, porque o dinheiro poderia ser usado em outra coisa. Se a questão é essa, então vamos usar o dinheiro do pré-sal para reduzir a conta de luz. Não para criar um subsídio novo. Vamos fazer o seguinte: a gente vai usar esse dinheiro, não vai ter térmica nenhuma, porque térmica é cara e desnecessária, não segundo nós, mas segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética).

No último plano da EPE, ela própria declara que a expansão sendo predominantemente eólica e solar é possível e custa R$ 54 bilhões a menos. Agora, o próprio governo reconhece que a expansão térmica é um ônus para o consumidor. Se a questão é essa, vamos usar [os recursos da PPSA] para atenuar os efeitos, você não faz as térmicas e vamos usar para subsidiar a energia do mais pobre. Seria mais fácil. Nem sei se é uma boa alocação de capital, mas o que não faz sentido nenhum é usar para subsidiar uma energia ineficiente, caríssima em comparação às demais, segundo a própria EPE.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) apresentou um projeto de lei para regulamentar hidrogênio como fonte de energia, que inclui a injeção de hidrogênio nos gasodutos de forma parcial. Esse argumento pode ser usado para promoção da construção deles?
Eu acho que não, simplesmente porque o primeiro cliente do Brasil para hidrogênio verde ou amônia, que provavelmente vai ser o que vai ser produzido para transformar em hidrogênio na ponta, vai ser certamente a Europa, então vamos exportar. Levar para dentro do Brasil não faz sentido nenhum.
Quem vai ter preço para viabilizar investimentos, que são caros, em hidrogênio são os países ricos. Não faz o menor sentido na nossa opinião, a conta não fecha.

Vocês trabalham com fontes renováveis e a velocidade da transição energética tem sido bastante discutida, primeiro por conta do impacto da pandemia, e agora com a guerra da Ucrânia e os países pensando em como garantir sua autonomia energética independentemente da fonte. Como esse contexto afeta o plano de negócios de vocês em relação às fontes?
A guerra é mais uma razão para o mundo acelerar a transição energética. Porque ela mostra o quão prejudicial é um efeito inflacionário imprevisto, mas possível, que pode ser ruim para economias que estão há milhares de quilômetros.

Nossas térmicas no Brasil têm combustível indexado ao dólar e ao preço do combustível internacional então você está lá na sua casa e no próximo mês vem uma conta de luz mais alta e você “opa, de novo, mais um aumento aqui”, e o que você tem a ver com o [presidente russo] Putin? Nada, né? Mas acontece.

Outros países não têm essa escolha. A Europa tem uma escolha muito mais difícil para fazer, ou seja, qual é a opção da Europa? Fazer offshore em grande profusão? Não tem nem espaço e tal, é difícil. Mas num país que tem o vento melhor do mundo onshore, que tem uma insolação como nós temos, que tem a hidrologia que nós temos, nos parece meio óbvio e, esse momento de guerra é bom para revelar isso, que nós deveríamos apostar em eletrificação e geração local de energia renovável como solução estrutural para o Brasil em termos de suprimento.

Para o Brasil é muito fácil resolver, a questão é só interesse político e da sociedade se conscientizar para isso. É um momento bom para se conscientizar porque as pessoas estão sofrendo, pagam gasolina a quase 10 reais, a conta de luz todo mês sobe, então tem que explicar: isso aqui tem muito a ver com a gente ter ainda uma influência de hidrocarbonetos na composição de custos da energia no Brasil, e isso gera um prejuízo para todos os brasileiros.

A boa notícia é que a gente não precisa disso. Nós podemos rapidamente nos livrar desses passivos que são as térmicas caras e de hidrocarbonetos, migrando rapidamente para uma matriz mais limpa porque nós podemos e porque nossa energia eólica e solar é muito barata.

Vocês preveem um crescimento no negócio de vocês considerando esse momento mais difícil?
Todas as empresas que podem comprar da gente hoje, compram. O cliente hoje que pode comprar energia renovável livre compra sem pestanejar, porque é mais barata e mais limpa. Não tem por que não comprar.

A única razão de a gente ter outras fontes e outras possibilidades no Brasil é porque a regulação não permite que nós ofereçamos energia limpa, barata e renovável para todos os brasileiros. E é por isso que tem lobby, porque quem faz lobby sabe que se abrir e liberar não vai haver espaço para outras fontes que não sejam eólicas e solar no Brasil, porque elas são muito baratas. […] A única razão para você ter outras fontes pleiteando expansão no Brasil são os interesses das empresas dessas fontes. Não vejo outra.

A gente tem visto algumas empresas optando por ampliar o papel da fonte eólica na própria carteira por conta do aumento de preço de alguns insumos relacionados à energia solar. As aquisições mais recentes de vocês estão relacionadas com esse contexto ou é algo mais a longo prazo?
Não, nós desenvolvemos mais eólica até hoje porque a eólica no Brasil tem uma vantagem em relação à solar ainda. Nós, por exemplo, temos um dos maiores complexos solares do Brasil, em Minas Gerais, 330 MW de solar e vai muito bem. Então nós olhamos de uma forma diferente: que maravilha o Brasil poder ser tão competitivo em solar e eólica.

A gente consegue praticar preços aqui mais baixos do que em qualquer lugar do mundo em termos de energia, esquece encargo, imposto, que aí soma tudo e vira um pesadelo. Isso é um ativo maravilhoso para o país e tem que ser mais bem explorado. Então, do nosso lado, a gente quer fazer mais solar e mais eólica. 

Obviamente que tem momentos em termos de custo que a eólica é mais vantajosa, a solar é mais vantajosa, depende do cliente também e tudo mais, mas nós fazemos as duas coisas e temos total convicção de que essas duas fontes vão ser as predominantes no Brasil daqui pra frente.

O senhor falou de a eólica ser mais competitiva nesse momento, por quais razões?
Estruturalmente ela é, no Brasil, porque os fatores de capacidade no país são muito maiores do que nos outros lugares do mundo de eólica onshore. Se eu tiver um parque de 40% de fator nos Estados Unidos, ele é muito bom, ele é excelente. No Brasil ele é ruim. Nós temos parque de fator de quase 60% no nosso portfólio.

A gente teve no fim de janeiro a publicação de um decreto sobre eólicaoffshore, isso está no mapeamento de vocês ou ainda não?
Veja, eu não tenho nada contra eólica offshore. Eu tenho contra subsídio. Então, certamente, se algum movimento for feito para gerar subsídio para eólica offshore nós seremos aqui, de uma forma muito frontal e muito cristalina, contra.

Porque não tem sentido nenhum você ter uma energia barata como nós temos no onshore criando propriedade econômica para a região mais pobre do Brasil, que é o Nordeste, e daí o sujeito vai lá e faz uma eólica offshore muito mais cara, porque ela é muito mais cara, via mecanismos subsidiados. Isso não faz o menor sentido. Para o bem do consumidor, como a gente tem feito há anos já, nós rechaçaremos qualquer tipo de subsídio, inclusive, de eólica offshore.

Agora, se a eólica offshore começar a ser competitiva como as demais fontes, obviamente, nós vamos olhar como investimento e vamos participar do processo.