iNFRADebate: Um soco no nariz

iNFRADebate: Um soco no nariz

30 de julho de 2019
Norman F. Anderson*

A infraestrutura é hoje estratégica para o sucesso de todos os países do mundo – impulsiona o crescimento econômico e guia de forma poderosa as aspirações dos cidadãos. A infraestrutura – no Brasil e em qualquer país – está na mente das pessoas. Menos por estradas, pontes e aeroportos, e mais por suas experiências pessoais no que tange à mobilidade, saúde ou um bom emprego. Uma boa estrada, água limpa, ferrovia eficiente melhoram a vida de todos e simbolizam, de forma muito real e visual, como um país trata seus cidadãos e o que esses cidadãos são encorajados a enxergar sobre si mesmos.

Nesse sentido, a infraestrutura é profundamente estratégica. Está no centro do papel do governo, de como os cidadãos veem o governo e ainda de como se veem. Se um governo não consegue a infraestrutura certa – em termos dos projetos, da criação de capacidade local profunda e da eficiência na construção e na operação –, há poucas chances de acertar alguma coisa. Isso não é fácil, e fica ainda mais difícil no novo modelo de uma infraestrutura bem-sucedida, apoiado em três características.

Primeiramente, há uma onda de tecnologia que passa pela indústria de infraestrutura – drones, veículos autônomos, armazenamento de energia, impressoras 3D, big data e aprendizado automático – o que é uma oportunidade transformadora. Assim como no advento dos microcomputadores há quase 40 anos, o desafio para o Brasil será usar essa tecnologia para transformar projetos, processos e desempenho. Para uma economia tão criativa como a do país, essa onda de tecnologia é um presente e não uma ameaça.

Mais importante ainda, essa é uma oportunidade para os cidadãos dizerem ao governo o que eles querem da sua infraestrutura. A era da UX (Experiência do Usuário) transformará o que construímos, como construímos e para que usamos – e, assim como já tem sido com os computadores e a tecnologia, será conduzida pelos desejos e necessidades dos usuários.

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Em segundo lugar, a capacidade do setor público é pouco discutida, mas absolutamente crucial. Infraestrutura é, claramente, um bem público. Mas os bens públicos não são imaginados, criados e administrados por um mercado mágico; o mercado de bens públicos funciona quando o governo desempenha o papel de catalisador e gerente de desempenho estratégico – garantindo que o mercado valorize a experiência de cidadãos em todo o país.

Isso requer uma nova abordagem institucional, e você pode argumentar que o Brasil e o PPI (Programa de Parcerias de Investimentos) estão à frente da maioria dos países do mundo nessa área. Certamente, pelo lugar do PPI na Presidência, pode-se argumentar que poucos países têm reconhecido a importância da infraestrutura tão claramente quanto o Brasil. Isso pode proporcionar uma vantagem estratégica.

Em terceiro lugar, nada funciona a menos que um país tenha uma visão forte de como priorizar sua infraestrutura – como um país, especialmente um país rico como o Brasil, conecta-se à economia global em constante mudança de modo a otimizar oportunidades para todos os cidadãos? Essas são questões difíceis – com foco em água limpa, exportação de commodities, eletricidade barata para a indústria local – que exigem o envolvimento sofisticado dos cidadãos, especialmente quando os investimentos feitos agora beneficiam as próximas duas gerações.

O que é mais interessante sob esse aspecto, de que a visão importa, e que os países com planejamento se saem melhor do que os países sem planos, é o ponto fundamentalmente verdadeiro, mas absolutamente contraditório, dito por Mike Tyson, de que “todos têm um plano até receberem um soco no nariz”. O Brasil – e todos os outros países do mundo – precisam ter uma visão de como se encaixar no mundo e o respectivo plano de infraestrutura, para ter sucesso em um mundo incrivelmente dinâmico… e os vencedores serão aqueles que se ajustarem mais rapidamente quando a economia global os soca no nariz.

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Infraestrutura não é mais um termo que se limita a descrever obras públicas. A inovação tecnológica, um novo papel mais sofisticado do setor público e a necessidade primordial de uma visão de longo alcance fizeram as escolhas na infraestrutura de um país absolutamente estratégicas.

Assim como um grande gestor de projetos de infraestrutura tem o desafio de combinar a expertise conquistada às custas de muito trabalho com um profundo conhecimento técnico, os líderes dos países vão precisar de uma capacidade enorme para fazer investimentos de longo prazo em infraestrutura que levem a uma visão grandiosa enquanto reúnem, de forma eficiente, ideias coletivas a fim de ajustar seus planos às necessidades e expectativas reais dos cidadãos.

Nesse sentido, o Brasil democrático e robusto fica em uma ótima posição para aproveitar as vantagens da infraestrutura estratégica e otimizar seu novo modelo, criando mecanismos que informem aos cidadãos sobre a grandeza de seu país e, em consequência, sobre a sua própria grandeza.

*Norman F. Anderson é chairman e CEO da CG/LA Infrastructure, que realiza nesta semana em Brasília o maior fórum de infraestrutura da América Latina.
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