iNFRADebate: Pandemia e transição energética

iNFRADebate: Pandemia e transição energética

18 de maio de 2020
Adriano Pires* e Elbia Gannoum**

Estamos num tempo de grandes incertezas, de instabilidade, de disrupções e, o pior, de lutos. O Coronavírus nos trouxe um espelho em que somos obrigados a olhar e constatar nossos limites como seres humanos e nossos erros como humanidade. Nós não podemos tudo e sabemos muito pouco. O vírus se impõe, expõe desigualdades e não negocia. Nossa responsabilidade coletiva hoje é salvar vidas, seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde e dos órgãos de saúde competentes, enquanto milhares de cientistas ao redor do mundo buscam vacinas e tratamentos. Sim, porque mesmo tendo que aceitar nossos limites, temos a capacidade de nos unir para ampliar conhecimento e resolver o problema, o que é a grande virtude de nossa espécie.

Este é um valioso paradoxo que o vírus nos faz olhar de frente: aceitar nossos limites como humanidade e humildemente entender que não somos a espécie mais forte e, ao mesmo tempo, trabalhar em conjunto para achar uma saída, por meio da ciência e do conhecimento. Se pudermos aprender com tal paradoxo, sairemos dessa crise mais fortes, mais aptos e mais conscientes de como enfrentar um outro problema que ameaça nossa espécie e nosso planeta e do qual não podemos e não devemos mais fugir: o aquecimento global. Não existe como dissociar a discussão das consequências da pandemia do fato de que o ser humano vai precisar se esforçar mais, muito mais, para cuidar do planeta daqui para frente. O vírus nos pegou de surpresa, o aquecimento do planeta está enchendo nosso copo através de gotas e quando o copo transbordar as consequências são inimagináveis.

Dentre os diversos mecanismos que temos utilizado para lutar contra o aquecimento global, queremos nos focar, nesse artigo, no papel da transição energética. Uma das perguntas que ronda os analistas é se com a queda do preço do petróleo provocado pela pandemia, poderá ocorrer uma mudança de rumo da transição energética. Acreditamos que não.

Em primeiro lugar, há que se entender a diferença entre fatores conjunturais e decisões estruturais. O tombo do preço do petróleo, explicado pelo conflito da Rússia com a Arábia Saudita, pela tentativa de eliminar do mercado os produtores americanos de shale oil e mesmo de biocombustíveis, é conjuntural. Tudo isso pegando uma carona na crise turbinada pela Covid-19, o que também é conjuntural. Para surpresa dos russos e dos sauditas, o petróleo abaixo de 30 dólares/barril provocou uma queda brutal da demanda de óleo. Ou seja, vivemos mais um ciclo de preço baixo do petróleo. É sempre bom lembrar que a indústria do petróleo vive de ciclos. Acreditamos, portanto, que devemos ver um ajuste na oferta, a médio prazo e uma recuperação dos preços.

Deste primeiro ponto, derivamos em segundo lugar, a seguinte questão: o que acontecerá com os investimentos em renováveis? Para responder isso, precisamos buscar os fundamentos na geopolítica e na economia, em um contexto histórico. No final dos anos 70, após duas crises do petróleo, os países não produtores de petróleo partiram para a busca de tecnologias e recursos renováveis, lançando base para terem independência e segurança energética, deixando de depender tanto do petróleo. Tais investimentos, ocorreram no Brasil com o lançamento do Proálcool nos anos 70. Nos anos 80 a Dinamarca e a Alemanha avançaram no desenvolvimento da tecnologia eólica e solar abrindo um novo mundo de possibilidades para explorar recursos renováveis e abundantes que sempre estiveram disponíveis, mas até então inacessíveis por falta de tecnologia.

Mais de três décadas após essa onda inicial de investimentos, a tecnologia que permitiu chegar a essa abundância de recursos transformou as energias renováveis em fontes competitivas na geração de energia. Com isso, a participação dessas fontes nas matrizes energéticas de diferentes países passou a ser crescente. A tecnologia que permitiu transformar sol e vento em eletricidade e a biomassa em combustível não vai recuar, ao contrário, só irá avançar. A queda de demanda de energia provocada pela pandemia e o fato de que as contratações a médio prazo tendem a ser mais baixas, provocará uma grande disputa de projetos, o que tende a alimentar ainda mais a competitividade das renováveis. Por que? Porque uma característica do pós Coronavírus será a priorização de investimentos em projetos que tragam melhor qualidade de vida. Isso é caso das renováveis e não dos fosseis.

Um outro fato positivo que está ao lado da renováveis é uma tendência de se criar matrizes energéticas regionais. Historicamente, o mundo sempre viveu sob um monopólio de uma determinada fonte de energia primária. Na Revolução Industrial inglesa, a fonte monopolista era o carvão. No século XX o petróleo. A maior indústria do século XX só foi o automóvel pelo fato de termos petróleo abundante e barato. Parece-nos que agora, com um mundo menos intensivo em energia, as maiores empresas deixaram de ser as petroleiras e passaram a ser empresas de serviço e tecnologia. Teremos matrizes energéticas onde cada região se aproveitará das suas vantagens comparativas, sempre privilegiando as energias mais limpas. Mesmo na transição energética, a fonte fóssil que terá protagonismo será o gás natural e um dos motivos é o fato de ser o menos poluente entre os fosseis.

O que também pesa a favor das renováveis é que a pandemia está abrindo ainda mais os olhos da humanidade para o imprescindível combate contra o aquecimento global. E, nessa luta, as fontes que não emitem gases de efeito estufa são nossa melhor aposta. Acreditamos, portanto, que vai haver uma taxa de crescimento maior na transição energética do que a que existia antes da pandemia. Naturalmente, no curto prazo, a velocidade da transição pode diminuir, pela queda de demanda, entretanto a médio e longo prazo a sua trajetória será acelerada.

As renováveis são a escolha óbvia para a energia do futuro e para a luta contra o aquecimento global, possuem atributos de impactos positivos sociais e econômicos que serão fundamentais para um futuro pós-pandemia. O GWEC (Global Wind Energy Council), por exemplo, lançou o documento “Energia eólica: um pilar para a recuperação da economia global – Reconstruindo melhor para o futuro”. No manifesto, o Conselho apresenta argumentos sobre o poder de investimento da eólica, com criação de empregos e efeitos positivos para as comunidades e para o desenvolvimento tecnológico. Além disso, o GWEC apresenta ações que podem ser tomadas pelos governos para garantir que, no “day after” dessa pandemia, os esforços para reconstrução e retomada da economia possam acontecer de forma a contribuir para termos uma sociedade mais justa e sustentável. Isso também vale para a biomassa e solar. A boa notícia é que o Brasil tem como uma das suas principais vantagens comparativas em relação a uma grande maioria dos países o fato de ser uma potência energética com uma grande diversidade de energias primarias e limpas.

No mar de incertezas que temos vivido, tem se tornado um mantra das últimas semanas o fato de que não voltaremos ao “normal” tão cedo e que, mesmo no pós-pandemia, o mundo que encontraremos será distinto. O que nós esperamos é que uma das diferenças desse novo mundo seja o fato de termos aprendido que nós, como seres humanos, não podemos tudo frente à natureza e suas leis, que temos nossos limites e que precisamos aprender a conviver amigavelmente com o planeta. E que, tendo enfrentado esses nossos limites nesses momentos sombrios, tal qual crianças que descobrem que não podem tudo, possamos amadurecer com humildade e modéstia e fazer escolhas mais sensatas, deixando um planeta melhor para as futuras gerações.

*Adriano Pires é sócio-fundador e diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infra Estrutura). Doutor em Economia Industrial pela Universidade Paris XIII (1987), mestre em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ (1983) e economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980). Atua há mais de 30 anos na área de energia.
**Elbia Gannoum é presidente-executiva na ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica) e vice-presidente do Conselho de Administração da GWEC. Doutora em Economia pela Universidade Federal de Santa Catarina.
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