Importadoras devem compensar só parte da demanda extra de combustível em novembro, diz associação

Importadoras devem compensar só parte da demanda extra de combustível em novembro, diz associação

21 de outubro de 2021

 Ludmylla Rocha, da Agência iNFRA

O presidente-executivo da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), Sérgio Araújo, disse à Agência iNFRA que as importadoras conseguirão absorver só parte do mercado que a Petrobras deixará de atender em novembro com o volume que têm armazenado.

Ele afirmou que esse volume está baixo, “porque as defasagens [de preços] estão elevadas há várias semanas”. A associação calcula defasagem média de 14% no valor da gasolina e 17% do diesel frente ao preço desses combustíveis no mercado internacional. “Com isso, as importações estão inviabilizadas”, disse.

Com os preços mais baixos no mercado doméstico dominado pela Petrobras, o combustível importado por empresas independentes não consegue competir com o produto distribuído pela estatal. Araújo afirma que, para atender à demanda, a Petrobras deveria avisar às empresas importadoras com antecedência os volumes que serão ofertados nas refinarias para que estas programem suas compras.

Dados do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás) apontam que 26% do diesel e 8% da gasolina foram adquiridos no mercado externo de janeiro a agosto de 2021, mas a estatal é a grande compradora.

Petrobras: “Demanda atípica”
A Petrobras admitiu, em comunicado ao mercado, que pode não atender toda a demanda de combustíveis solicitada para o próximo mês. No texto, a petroleira afirma que “recebeu pedidos muito acima dos meses anteriores e de sua capacidade de produção”.

A empresa de petróleo argumenta ainda que “apenas com muita antecedência” poderia se programar para atender o que chama de “demanda atípica”. “Na comparação com novembro de 2019, a demanda dos distribuidores por diesel aumentou 20% e a por gasolina 10%, representando mais de 100% do mercado brasileiro”, diz.

Risco de desabastecimento
O risco de desabastecimento foi anunciado no último dia 14 pela Brasilcom (Associação das Distribuidoras de Combustíveis). Em nota, a associação afirmou que a estatal de petróleo comunicou uma série de distribuidoras sobre cortes unilaterais nos pedidos de gasolina e óleo diesel para o próximo mês.

“As reduções promovidas pela Petrobras, em alguns casos chegando a mais de 50% do volume solicitado para compra, colocam o país em situação de potencial desabastecimento”, afirmou. Na ocasião, a Petrobras se limitou a dizer que estava cumprindo todos os contratos firmados.

Questionada sobre a nova nota da petroleira, a Brasilcom afirmou que “mesmo que a Petrobras não consiga, segundo seu comunicado, atender a todos os pedidos feitos pelas distribuidoras, sempre permanece a possibilidade de importação, quer pela própria Petrobras quer pelas distribuidoras, de modo a suprir o que parece ser a deficiência por incapacidade de produção, face ao alegado aumento da demanda versus a estimativa da empresa”. 

A associação disse, porém, que a ação teria como consequência “o efeito nos preços dos combustíveis”. “Quanto à versão da Petrobras de que os pedidos feitos foram acima das médias anteriores, não podemos opinar, pois se trata de assunto exclusivo e confidencial entre clientes e fornecedor”, completou.

“Difícil explicar pela oferta”
É a avaliação do presidente da Inter.B Consultoria, Cláudio Frischtak. Ele aponta que a demanda por combustíveis está conectada com o desempenho da economia, que, apesar de ter feito um movimento de recuperação com a pandemia, “está começando a definhar”. Ele estima que o trimestre que terminou se encerre com crescimento de cerca de 0,2% no PIB (Produto Interno Bruto). Para o último do ano, deve ser de zero ou até “levemente negativo”.

“O consumo de combustível normalmente segue de perto o crescimento da economia. O diesel também segue o crescimento do agronegócio, que é uma coisa mais específica. Mas, de qualquer maneira, a essa altura – já se aproximando do final do ano –, o determinante é o crescimento da economia, que não está bombando”, explicou.

O economista, que já atuou na área de indústria e energia do Banco Mundial, aponta que a restrição da oferta “está fundamentalmente calcada na defasagem de preço”.

“Se o preço doméstico não acompanha o preço internacional, isso só se sustenta num regime de monopólio estatal ou subsidiado pelo estado”, pontuou.

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