Importação de energia não será relevante para atenuar a crise hídrica

Importação de energia não será relevante para atenuar a crise hídrica

2 de julho de 2021

Antonio Carlos Sil, para a Agência iNFRA

A importação de eletricidade de países vizinhos, como Argentina e Uruguai, citada como parte dos planos do governo para o enfrentamento da crise hídrica, não deverá ser relevante, apontam órgãos oficiais.
 
Houve um aumento da entrada de energia entre janeiro e abril deste ano – dados mais recentes –, porém, para os próximos meses, os mais preocupantes do período de estiagem, a tendência é que a modesta contribuição estrangeira venha a decrescer.
 
É que a estação seca no Brasil coincide com o rigoroso inverno dos países do Sul, que precisam da energia de que dispõem, especialmente o gás natural, para aquecimento de ambientes.
 
0,7% do total
Segundo dados compilados pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) por solicitação da Agência iNFRA, de janeiro a abril deste ano o Brasil registrou 476,9 MW médios em importação líquida de energia, sem garantia física associada.
 
O montante é o equivalente a 0,7% do total gerado pelo país no mesmo período. Em 2020, considerados os mesmos meses, o sistema brasileiro importou 25,2 MW médios, o que equivale a 0,04% da produção nacional.
 
A importação cresceu consideravelmente a partir de outubro do ano passado e a continuidade desse comportamento dependerá das decisões de despacho do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), assinalou a CCEE.
 
“A compra de energia de países vizinhos é uma estratégia que pode ser adotada, em certa medida, como uma das alternativas para reduzir a necessidade de geração termelétrica no Brasil neste período de maior pressão sobre as fontes hídricas”, ressaltou a entidade.
 
ONS não conta com esses recursos
Consultado pela Agência iNFRA, o ONS informou que, embora esteja autorizado desde o fim de 2020 a usar energia da Argentina e do Uruguai pelo CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico), não está contando com os recursos energéticos desses dois países nos próximos meses em sua programação operativa.
 
Ainda segundo o ONS, a expectativa de oferta por parte das duas regiões é bem reduzida. Deve crescer apenas nos meses seguintes ao inverno local, com o aumento da temperatura na Argentina e Uruguai, devido à chegada da primavera.
 
“Reforçamos que, para o ano de 2021, não existe previsão de racionamento ou apagão. Para 2022, diversos órgãos envolvidos no enfrentamento da crise hídrica trabalham para garantir ‘energia e potência’ com a entrada de mais geração e alguns reforços nas linhas de transmissão já planejados”, destacou o Operador.
 
Os entendimentos para a ampliação do intercâmbio elétrico entre países da América do Sul evoluíram muito pouco nas últimas décadas, segundo apontam especialistas do setor.
 
Há muito que levantamentos – inclusive realizados por entidades de fomento internacionais, como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) –, dão conta de um enorme potencial de complementariedade que poderia ser aproveitado.
 
Fortes diferenças regulatórias e questões políticas, porém, atrasam entendimentos mais aprofundados para acelerar, na prática, os projetos de conexão, conforme apontam estudos do Gesel/UFRJ (Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Os trabalhos não estão totalmente parados, mas caminham devagar.
 
Hoje, só existem conexões ativas com Argentina e Uruguai – sem contar Paraguai, que compartilha a hidrelétrica Itaipu com o Brasil.  A conexão com a Venezuela, por azar, está inativa por conta da situação de instabilidade operacional da companhia local, a Corpoelec.
 
Essa situação obrigou o governo brasileiro a, inclusive, tomar providências emergenciais para manter o fornecimento a Roraima, estado que, até meses atrás, tinha grande dependência da importação da energia produzida pela hidrelétrica de Guri.
 
Arco Norte
Um extenso projeto de interligação, com 1.900 km de linhas de transmissão, o chamado Arco Norte, que interligaria Brasil, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, conforme aponta o Plano Decenal de Expansão 2030, elaborado pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), não tem prazo para sair do papel tão logo. 
 
Para complicar, parte da viabilização desse megaempreendimento depende da interligação Manaus-Boa Vista, linha de transmissão cuja construção está travada, devido a questões de licenciamento ambiental. Da mesma forma, não se vislumbra prazo para a construção de uma nova usina hidrelétrica no rio Madeira, em parceria com a Bolívia.
 
Um complicador extra nesse panorama é que estudos e troca de informações entre Brasil e os países vizinhos tinham a Eletrobras como importante intermediária. Agora, com o processo de desestatização da companhia, não ficou claro ainda como ficará essa atribuição ou com quem ficará.

Leia também:  Pepitone: "O consumidor sempre pagou pelas bandeiras, só que escondido e com juros; hoje há transparência"