Eleição em 22, campanha em 21

Eleição em 22, campanha em 21

21 de maio de 2021

Fábio Vasconcellos*

A velocidade dos acontecimentos talvez tenha impedido um olhar mais atento, mas, provavelmente, o mês de abril será lembrado como um marco da disputa eleitoral presidencial de 2022. Se antes esse marco se orientava mais pelos prazos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com a movimentação de partidos, candidatos e a definição de uma agenda nacional quase sempre no primeiro semestre do ano eleitoral, desta vez foram as decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) que criaram o ponto de partida para o que convencionalmente chamamos de “momento da pré-campanha”.

Em um espaço de 15 dias, as decisões do STF produziram ao menos dois efeitos imediatos. Primeiro mexeram com o quadro de possíveis candidatos para o próximo ano, o que, por consequência, afeta desde já arranjos entre partidos e lideranças. O segundo impacto foi o de reorientar a agenda política, limitando o protagonismo do presidente da República, Jair Bolsonaro, e criando condições para um quadro de responsabilização com efeitos sobre 2022.  Ambos os efeitos já impactam o fluxo de informações e direcionam a atenção do eleitor, convidado a responder para os institutos de pesquisa: se a eleição fosse hoje, em quem você votaria?

Vamos recapitular. Primeiro, o STF confirmou a liminar que mandou instalar a CPI da Covid no Senado. No dia seguinte, o plenário da Corte manteve a anulação de todas as decisões da Justiça Federal de Curitiba nos processos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sequência, o STF considerou o ex-juiz Sérgio Moro suspeito nos processos que envolviam o ex-presidente. A partir desse quadro, as lideranças políticas passaram a organizar seus discursos e posicionamentos. 

Considerado um nome forte para enfrentar Bolsonaro, o ex-presidente Lula iniciou uma série de entrevistas nas quais procurou dimensionar as responsabilidades do presidente nas crises sanitária e econômica que estamos passando. O ex-ministro Ciro Gomes começou a produzir e a disseminar vídeos em que apresenta suas ideias políticas e propostas para tirar o país da crise. Houve movimentos e posicionamentos públicos ainda dos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e de São Paulo, João Doria (PSDB), além do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM). Todo mundo quer ser visto, lembrado e considerado pelos institutos de pesquisas até o dia da indicação oficial das candidaturas em 2022. 

Leia também:  Lobby tenta alterar PL do Free Flow para obrigar implantação de chip e adia votação

Se por um lado o presidente Bolsonaro vê seus adversários se organizarem para a disputa, por outro a criação da CPI da Covid no Senado Federal estabeleceu um ponto referência nada desprezível. As falas desastrosas do presidente durante um ano de pandemia são diariamente lembradas pelos integrantes da CPI; as revelações dos depoimentos, por sua vez, alimentam também o noticiário. Nesse quadro, a comissão é hoje uma espécie de microfone aberto, que divide o protagonismo da cena política com o presidente Bolsonaro.

Para quem pensava quase que diariamente na possibilidade de reeleição, o cenário não é nada favorável para o presidente. Na literatura de campanhas eleitorais, é conhecida a tese de que o mandatário costuma ter vantagem nas disputas de reeleição. Primeiro porque disputa a eleição sem precisar se afastar do cargo, segundo porque suas falas e decisões costumam ser amplamente cobertas pela imprensa. O grau de visibilidade do presidente dá a ele, portanto, uma enorme vantagem competitiva. No caso brasileiro, essa hipótese parece operar em sentido contrário.  

A inabilidade do presidente na condução da crise sanitária, os impactos na economia e as sucessivas crises que ele próprio criou anteciparam a discussão sobre sua sucessão. Até abril, esse debate enfrentava dificuldades pela ausência de nomes competitivos. Agora, não só proliferam candidaturas, como o presidente perdeu o protagonismo. O início bastante antecipado da pré-campanha, aliado à condição defensiva na qual se encontra o presidente, tende a produzir um efeito reverso da imensa visibilidade natural do cargo: a atenção pública estará direcionada, e por mais tempo, a temas desfavoráveis e conduzidos por seus adversários em 2022. 

*Fábio Vasconcellos é cientista político, jornalista e professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da ESPM-RJ.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.