Depois de atingir R$ 3 mil, custo de operação de energia despenca para R$ 533 no auge da seca

Depois de atingir R$ 3 mil, custo de operação de energia despenca para R$ 533 no auge da seca

28 de setembro de 2021

Ludmylla Rocha e Leila Coimbra, da Agência iNFRA

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) divulgou na última sexta-feira (24) que o CMO (Custo Marginal de Operação) desta semana – de 25 de setembro a 1º de outubro – será de R$ 533,36/MWh (megawatt-hora). O valor destoa dos R$ 3.044,45/MWh registrados há pouco mais de um mês – de 14 a 20 de agosto – e é o mais baixo desde junho, quando o valor foi de R$ 426,30 entre os dias 12 e 18 de junho.

A diferença de valor, no entanto, não acompanha as condições dos reservatórios, que estão nos níveis mais baixos desde 2001, quando houve o racionamento de energia no país. Na semana citada de junho, a EAR (energia armazenada) do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que concentra 70% da carga do país, era de 30,17%. Já na semana passada, dado mais recente, o armazenamento chegou a 17,48%, segundo o ONS.

O CMO é calculado por programas computacionais que levam em consideração as chuvas dos próximos dias. Mas os programas não levam em conta o quadro hidrológico geral dos meses que antecederam essas condições, o que pode acarretar em uma percepção fora da realidade, segundo agentes do setor.

Para especialistas, esse descasamento entre as condições de geração e o CMO demonstram um problema do modelo adotado pelo governo. “Fica mais sensível quando os reservatórios estão vazios. É um problema muito grave que ninguém quer corrigir”, avalia o ex-diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), ex-presidente da Abrace (Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia) e consultor Edvaldo Santana.

Ele alerta que, com esse preço indicado pelo programa, o governo deveria desligar parte das usinas térmicas num momento em que o próprio ONS reforça em suas notas técnicas que a geração vinda dessa fonte é uma das medidas mais importantes para garantir o atendimento.

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“Aconteceu a mesma coisa em 2001. O governo desprezou naquela época [o programa computacional], como agora, quando a CREG [Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética] já autorizou o despacho de UTEs [usinas termelétricas] caríssimas até abril de 2022. Se o governo acreditasse no programa de otimização, teria que desligar termelétricas. O modelo matemático admite que, como as chuvas virão de qualquer maneira, as coisas melhorarão, o que não é verdade”, avalia.

O ONS e o Ministério de Minas e Energia, porém, já sinalizaram que devem manter as térmicas em funcionamento ao longo do período úmido, mesmo se as chuvas apresentarem bom desempenho, a fim de recuperar os reservatórios tanto para geração de energia elétrica quanto para outros usos.

Previsões de chuvas derrubaram preços
O PMO (Programa Mensal da Operação) feito pelo ONS explica que nesta semana deve ocorrer precipitação nas bacias dos rios Jacuí, Uruguai, Iguaçu, e em pontos isolados das bacias dos rios Paranapanema, Tietê, Grande, Paranaíba, Tocantins, do trecho incremental à UHE Itaipu e da calha principal do rio Paraná.

Técnicos do setor consultados pela Agência iNFRA afirmam que o CMO desta semana foi impactado por previsão de chuvas nas regiões Norte e Sul. No Sul, é esperado 93% da MLT (média de longo termo) e, no Norte, 65%.

Para eles, contribuíram também para a redução o aumento da vazão do Rio São Francisco, podendo chegar a 15% do volume útil de Sobradinho, conforme despacho da CREG; o aumento do intercâmbio de energia entre Nordeste e Sudeste, bem como melhores expectativas de chuvas para novembro e dezembro.