Dependência de profissionais perto da aposentadoria é gargalo para o setor nuclear no Brasil

Dependência de profissionais perto da aposentadoria é gargalo para o setor nuclear no Brasil

30 de agosto de 2020

Guilherme Mendes, da Agência iNFRA

A falta de mão de obra especializada no setor nuclear pode ser um gargalo para o desenvolvimento da matriz no Brasil nos próximos anos, apontam especialistas na área.
 
Hoje, os quadros essenciais à pesquisa e operação de diversos segmentos de geração nuclear são dominados por profissionais próximo da aposentadoria ou já aposentados.
 
Como nos últimos anos não havia a perspectiva de expansão da área nuclear no país, não houve uma ampla formação de jovens profissionais com esse tipo de conhecimento, que atualmente é dependente de profissionais mais velhos.

“É um problema mundial”, reconhece Cláudio Almeida, que é o presidente da Aben (Associação Brasileira de Energia Nuclear). Almeida, que participou da construção das usinas de Angra 1 e 2, e foi membro da Aiea (Associação Internacional de Energia Atômica), aponta que, como a maioria das usinas nucleares mundo afora foram construídas nos anos 1960 e 1970, ficou-se um grande tempo com pouca atividade nessa área.
 
“O pessoal que participou da construção das usinas aqui no Brasil, que tem toda a experiência, estão se aposentando. Assim como eu, que participei do licenciamento de Angra.”

Ao redor do globo
As razões da escassez de profissionais ao redor do mundo são variadas, aponta Almeida. Enquanto países como Rússia, Índia e China podem estimular o setor ao construir novas usinas, a Alemanha, que possuiu um grande parque nuclear no passado, está aos poucos desligando seus reatores em prol de outras fontes de energia – o que encarece a formação de profissionais.

“Não vale a pena entrar nessa área na Alemanha, sabendo que em 2022 todos os reatores estarão desligados”, comentou o presidente da Aben. A experiência desses profissionais, defende, vem apenas com a construção de novas centrais elétricas.

O problema extrapolou os limites da geração de energia e chegou à indústria que atende o setor. “Essas indústrias continuam fabricando equipamentos, mas sem a qualidade nuclear. Para fazer a retomada, a indústria terá de ser requalificada”, comentou o presidente da Aben, que exemplificou: “Para se produzir um gerador de uma usina nuclear, há que se seguir certas garantias de qualidade e de disponibilidade que não são as mesmas garantias de um gerador feito para um show de música na praia”.

O  Brasil tem um plano ambicioso para a geração de energia nuclear que não deve se limitar, nos próximos anos, às já operantes usinas de Angra 1, 2 e à futura planta de Angra 3. O PNE (Plano Nacional de Energia) 2050 aponta que a matriz pode chegar a variar de 10 GW a 23 GW  de capacidade instalada, o que seria quase 12 vezes mais do que os 2 GW instalados no complexo de Angra.
 
O ministro das Minas e Energia é um entusiasta desse modelo energético. Bento Albuquerque, que esteve na linha de frente da construção do primeiro submarino nuclear brasileiro, já disse que deve apresentar em breve um novo modelo de negócio para novas usinas termonucleares, com foco na parceria com grupos privados.

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