Capitalização da Eletrobras precisa de investidores externos, mas parte deles estará de férias em julho

Capitalização da Eletrobras precisa de investidores externos, mas parte deles estará de férias em julho

29 de abril de 2022

Roberto Rockmann*

O mês de abril postergou o fim da novela de capitalização da Eletrobras, cujo processo será julgado pela última vez pelo TCU (Tribunal de Contas da União) em 18 de maio. O governo pretende levar em junho ou até a segunda quinzena de julho a operação que terá de levantar R$ 25 bilhões no mercado para que a União deixe de ser acionista majoritária da estatal. No mercado, há incertezas sobre o andamento do processo.

Levantar R$ 25 bilhões exigirá acessar bolsos no exterior. O volume é elevado diante de um cenário que combina: proximidade das eleições, piora do cenário político e macroeconômico no Brasil, férias de verão no hemisfério norte e menor liquidez internacional com o Banco Central dos Estados Unidos apertando o torniquete monetário.

A tarefa não é simples e traz dúvidas para executivos que trabalharam na linha de frente da estatal. “Não é simples e será bastante desafiador, porque ela dependerá dos americanos e uma boa parte deles estará em férias”, resume um executivo do setor financeiro. Em julho de 1998, o governo FHC fez a privatização da Telebrás, mas era outro contexto. Os preços de energia no mercado livre que constam no edital também seriam elevados, o que retiraria a atratividade, segundo consultores que analisaram os documentos.

Nos ministérios da Economia e de Minas e Energia, o atraso na decisão reduziu um pouco o ânimo, mas a expectativa é de que ainda há tempo e interesse. A leitura é de que os road shows mostraram apetite de grandes fundos internacionais. Com 30% da geração e 40% da transmissão, livre das amarras da Lei 8.666 e com mais flexibilidade para investir e reduzir custos, a estatal teria grande potencial de ganho.

Na primeira semana de abril, o governo correu para que o TCU desse seu sinal verde ainda em abril, o que permitiria realizar a operação no mês que vem. Na primeira terça-feira do mês, três empresários receberam ligações do governo federal para falar em um evento organizado às pressas na quinta-feira, 8 de abril, sobre a importância da capitalização da estatal.

Com agendas apertadas, eles não puderam participar. Organizado às pressas, o evento, que buscava explicar a operação, então teve como destaque a participação do ministro da Economia, Paulo Guedes. O evento no TCU não impediu o atraso no processo, mas o órgão de controle já teria deixado de ser a fonte de receio. Na semana passada, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, apontou nessa direção. “A decisão atrasou o cronograma, mas o relator apresentou seu voto e foi discutido com todos os ministros”, disse a jornalistas.

O PT (Partido dos Trabalhadores) observa de perto a discussão. No grupo de energia, o assunto Eletrobras divide as atenções com o de refinarias. A capitalização da Eletrobras é vista com descrença. Em uma das etapas de valorização da estatal, o critério usado teria sido o de atualização do capital social, o que não seria permitido. Essa é a base da argumentação que tem sido usada para criticar o processo.

Caso a capitalização não ocorra até julho, ela ficará para o próximo governo. Em uma eventual presidência de Luiz Inácio Lula da Silva a partir de 2023, provavelmente ela terá história similar à de 2003, quando Lula, ao assumir seu primeiro ano de mandato, retirou a Eletrobras do PND (Programa Nacional de Desestatização).

*Roberto Rockmann é escritor e jornalista. Coautor do livro “Curto-Circuito, quando o Brasil quase ficou às escuras” e produtor do podcast quinzenal “Giro Energia” sobre o setor elétrico. Organizou em 2018 o livro de 20 anos do mercado livre de energia elétrica, editado pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), além de vários outros livros e trabalhos premiados.

As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.