Brasil pode dobrar oferta de escoamento de gás no curto prazo, diz secretário do IBP

Brasil pode dobrar oferta de escoamento de gás no curto prazo, diz secretário do IBP

19 de agosto de 2020

Guilherme Mendes, da Agência iNFRA

Com a entrada de novos empreendimentos de escoamento de gás, assim como a reabertura da disputa em projetos que já estão em operação, o Brasil tem a capacidade de dobrar, no curto prazo, a sua oferta de gás natural. A análise é do secretário-executivo de gás natural do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás), Luiz Costamilan. 

A principal expectativa para essa expansão, apontou o secretário, é a malha de gasodutos da chamada Rota 3. O investimento, que deve atuar no escoamento da produção da bacia de Santos para o Comperj, no Rio de Janeiro, deve entrar em operação em 2021. Com uma capacidade de escoar até 21 milhões de m³ por dia, Costamilan calcula que só sua entrada pode aumentar em 40% a capacidade de escoamento do pré-sal. 

O outro evento citado por Costamilan ocorreu na última sexta-feira (14): a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) reiniciou a chamada pública para a alocação de capacidade no Gasbol, o Gasoduto Brasil-Bolívia. Os 10 milhões de m³ em disputa são o volume do qual a Petrobras abriu mão no final de 2019. Segundo a agência reguladora, a expectativa é que o resultado seja conhecido em 14 de setembro, e a prestação de serviços seja iniciada ainda neste ano.

Com isso, defendeu Costamilan, o país possui no momento infraestrutura suficiente para escoar sua demanda de gás natural. “O mercado brasileiro está abastecido”, disse. “No curto prazo, pode-se duplicar a oferta.”

O secretário defendeu que a infraestrutura para escoar o gás de novos campos e bacias tem de ser debatida no futuro, quando for identificada uma demanda ampla pela commodity. “Aí caberá ao BNDES e aos governos estaduais a obrigação de criar condições para esses investimentos”, disse.

PL do Gás é “novo paradigma”
Costamilan se mostrou otimista ao PL 6.407/2013, que cria um novo marco do gás no país. Segundo o executivo do IBP, a possibilidade de acesso ao transporte e infraestrutura marca “uma quebra de paradigma”.

“Ao permitir que outros fornecedores, que não a Petrobras, atinjam este grande consumidor, por meio dos acessos às infraestruturas essenciais e ao sistema de transporte, criam-se condições de competição no Brasil”, afirmou. “E isso terá um impacto muito importante em termos de reindustrialização, desenvolvimento, crescimento e de atração de investimento no consumo, ou para o consumidor. Por isso esse sentido de urgência.”

O PL 6.407/2013, que tramita em regime de urgência pela Câmara dos Deputados, não está incluído na pauta de deliberações desta semana. Na terça-feira passada (11), o relator do projeto, Laercio Oliveira (PP-SE), buscou cravar a votação entre hoje e quarta-feira (19), mas o texto ainda não foi incluído na pauta de deliberações.

O principal desafio do PL do Gás, segundo Costamilan, é a construção de práticas para que os novos fornecedores exerçam seus empreendimentos. O setor, segundo o secretário do IBP, tem ativos que interessam a investidores no mundo todo: a compra de 90% da NTS (Nova Transportadora Sudoeste) por um consórcio de investidores liderados pela Brookfield e a participação majoritária da Engie na TAG, que atende o Nordeste, totalizariam R$ 50 bilhões em investimentos, segundo o IBP.

Interiorização com base econômica
A possibilidade de interiorização dos gasodutos, que hoje estão mais próximo dos campos de exploração, na região costeira do país, poderia trazer a commodity mais próximo de grandes centros consumidores do país e que não estão no litoral. Sem competitividade econômica, argumentou Costamilan, tal investimento pode não valer a pena.

“Somos favoráveis à interiorização, mas não a qualquer custo”, defendeu. “Quem defende a interiorização tomando como exemplo o saneamento e a energia elétrica, falam de duas atividades que não têm competição. Ou se tem energia elétrica ou se tem vela; ou se tem saneamento ou não se tem água, esgoto e saúde”, comparou.

Segundo Costamilan, o interior do Brasil tem, hoje, muitas alternativas para o gás natural. Para ele, o que faria o consumo no interior crescer a ponto de compensar o investimento em gasoduto seria um ganho de escala, com redes mais amplas atendendo residências.

“Nos países desenvolvidos, há redes mais amplas, porque consumos por residência são muito maiores. Quando a escala é pequena, como no caso do Brasil, onde não se usa gás para aquecimento, cria-se um cenário com alternativas mais econômicas”, concluiu.

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