Análise: crise energética se agrava com estiagem e calor e preços podem permanecer altos

Análise: crise energética se agrava com estiagem e calor e preços podem permanecer altos

29 de agosto de 2022

Roberto Rockmann, colunista da Agência iNFRA

Há anos morando na Espanha, a jornalista Susana Bragatto tem se deparado com uma conta de luz cada vez mais cara desde o fim da pandemia. O país é também um dos mais atingidos pela seca que vem assolando a Europa. As chuvas muito abaixo da média têm tido impacto sobre as hidrelétricas, que geram cerca de um quinto da eletricidade do país e já causam inquietação nos operadores do sistema. A crise de gás se soma à de eletricidade.

Fachadas apagadas às 22h
Em Barcelona, desde 10 de agosto, as noites são mais escuras: foi instituído o “apagão” de fachadas comerciais a partir das dez da noite. O novo regulamento também estipula novas regras para a eficiência energética de edifícios públicos e um limite para o uso do ar-condicionado pelos comércios: mínimo de 27 graus no verão e 19 no inverno.

A alta do diesel tem feito o governo espanhol subsidiar o transporte público. Para visitar seu namorado, que mora na Grande Barcelona, Susana comprou um bilhete válido de 1º de setembro a 31 de dezembro por 10 euros. A passagem permite infinitas viagens para cidades próximas durante esse período. Ao término, ela ainda será ressarcida pelo governo.

Susana, brasileira de Recife, é uma das milhões de pessoas afetadas pela complexa crise europeia que assola os mercados de gás natural, eletricidade, combustíveis, mobilidade urbana e água e cujos resultados serão sentidos em todo o planeta, com implicações regionais e mundiais.

Com uma crise afetando bolsos e hábitos de milhões de europeus, os governos têm recorrido a subsídios, limites aos preços-tetos dos mercados de eletricidade e gás, interferências em preços.

Preços futuros: mil euros
Os preços futuros para daqui um ano na França e Alemanha estão próximos de mil euros, diante da constatação de que essa crise não será resolvida em um inverno. Isso levou o economista Paul Krugman a comentar, nessa sexta-feira, em sua coluna no “The New York Times”, que os preços da crise do petróleo da década de 1970 parecerem minúsculos diante dos atuais. Lembrando que a crise do petróleo dos anos 70 levou à quebra de emergentes, como o Brasil, e ao plano Brady.

Além do segmento de gás natural
A crise do gás natural, iniciada com a invasão da Ucrânia pela Rússia e pelo uso do insumo para criar abalos na União Europeia, ganhou uma outra dimensão com a combinação de altas temperaturas e estiagem.

A consultoria Timera Energy analisa que isso abriu uma nova crise energética dentro da já existente, impulsionada por cinco fatores: 1) baixa disponibilidade de energia nuclear na França com estresse hídrico complicando o cenário; 2) baixo nível de reservatórios dos países nórdicos à península ibérica; 3) fechamento de plantas térmicas na Europa Ocidental por decisões antes da crise; 4) logística de suprimento de combustíveis afetada pelo baixo volume do rio Reno; 5) geração solar e eólica abaixo do esperado.

A crise do gás natural se soma à de eletricidade com especialistas em energia elétrica discutindo planos de racionamento afetando indústrias e consumidores residenciais e até cortes rotativos em alguns horários, caso os sistemas fiquem sob estresse muito maior.

Escassez por três anos
Na análise da Timera Energy, a escassez de gás pode perdurar por três anos, três invernos. Sem a Rússia voltar aos padrões de envio de gás de janeiro, as opções sobre a mesa seriam: redução da demanda industrial e residencial. Isso se combina à disparada dos preços, que tende a fazer Tesouros terem de cobrir as contas de milhões de consumidores.
 
Empresa austríaca em dificuldades
Alemanha e França saíram na frente em socorros financeiros a empresas, casos da alemã Uniper, maior importadora de gás da Alemanha, e da EDF, uma das maiores concessionárias de serviços de energia da Europa. Na mídia austríaca a Wien Energia, principal fornecedora de energia do país, precisaria de 1,7 bilhão de euros para não entrar em falência, o que levou o governo a convocar uma reunião de emergência.

No lado dos consumidores, as queixas são crescentes. Nesse fim de semana, britânicos queimaram as contas de luz em manifestações contrárias à disparada dos preços. Nos Estados Unidos, as queixas são grandes também, estimativas de consultorias apontam que um entre seis americanos está com as contas de energia atrasadas.

Dúvidas de bilhões de dólares
Isso leva a perguntas: se a crise perdurar por dois invernos, quanto os Tesouros terão de desembolsar? Terão de emitir dívidas? O euro vai perder ainda mais valor? Como a indústria alemã reagirá? Os conglomerados alemães ficarão em posição frágil? Quem vai levar as indústrias europeias que fecharem em um contexto em que muitas empresas hoje também reduzem sua presença na China, caso da Apple? Os países europeus permanecerão unidos ou na hora do banho quente do inverno fissuras aparecerão? A União Europeia se manterá unida? Isso terá impacto sobre acordos comerciais assinados pelo bloco europeu?

Qual impacto sobre a economia mundial e sobre a inflação? As cadeias globais de valor, já pressionadas pela pandemia, reagirão como, ainda mais em um momento em que algumas províncias chinesas também enfrentam cortes de energia elétrica e secas que reduziram o despacho hidrelétrico? Os mercados livres serão redesenhados dos países nórdicos à Península Ibérica? Haverá mais socorros a empresas de energia por conta da disparada de preços?

Gestores de investimentos da Faria Lima e do Leblon têm ligado para a PSR para tentar entender os desdobramentos da crise. “Os efeitos de um racionamento nós já estamos vendo, como a redução na demanda industrial por gás na Alemanha – que está em cerca de 25% neste mês. O importante será ver o quanto desta redução de demanda prejudica o desempenho da produção industrial; isto é, até onde houve destruição de demanda e até onde foi possível, por exemplo, substituir combustíveis”, diz Rodrigo Novaes, analista da PSR.

O cenário europeu se soma a problemas na China, em que algumas províncias já vivem escassez de energia, e indústrias estão reduzindo sua produção, e preocupação sobre estoques baixos de combustíveis no Nordeste dos Estados Unidos, o que pode levar o governo Biden a reduzir exportações de diesel.

E o Brasil?
Se a escassez das moléculas de gás na Europa perdurar por pelo menos três anos, isso implica um mercado internacional de gás em que os preços devem seguir altos. A que preço sairão os 8 GW de térmicas a serem contratados pela lei que autorizou a capitalização da Eletrobras? De outro lado, o gás do pré-sal se torna ainda mais valioso. Será usado em térmicas ou para a reindustrialização?

Com 20% de derivados vindos do exterior, com parte dos Estados Unidos com estoques baixos e grandes empresas europeias recorrendo a diesel para geradores de emergência, como ficarão a oferta e demanda do combustível nos próximos meses e em 2023? Como se comportará a política de importação das empresas brasileiras que atuam na distribuição?

Com os países europeus e a China tendo de recorrer a diesel, carvão e lenha, as metas do Acordo de Paris ficam cada vez mais distantes de serem cumpridas. Com um cenário complexo pela frente, metas mais agressivas também poderão ser ainda mais fictícias. Como ficará o combate às mudanças climáticas? O Brasil pode ganhar ainda mais espaço como potência descarbonizante.

Em relação à operação do sistema, o caso da Europa ilustra as dificuldades que operadores e planejadores têm pela frente. Em recente entrevista à Agência iNFRA, o diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Luiz Carlos Ciocchi, disse que, no pior dos cenários, o país deve chegar a 40% de armazenamento dos reservatórios em novembro, bem acima dos cerca de 20% do ano passado, mas ainda é cedo para dizer que boa parte do parque térmico ficará desligado. “Sempre quando falamos do próximo ano, sem ainda ter chegado ao período úmido, a gente tem um gigantesco ponto de interrogação”, disse.

Vale à pena perguntar se, depois da crise do ano passado, o Brasil melhorou mesmo sua governança e fortaleceu seus instrumentos que garantem flexibilidade e segurança à operação e ao planejamento, que têm de atuar em cenários cada vez mais incertos. Contratar energia emergencial e depender de gás importado serão tarefas hercúleas nos próximos três anos.

Diante de uma corrida de ouro cujos resultados são incertos, de avanço dos sistemas descentralizados, do papel do Congresso como planejador, da potencial ampliação do mercado livre, de divergências na revisão ordinária das garantias físicas das hidrelétricas, é bom refletir quais aperfeiçoamentos são urgentes e se realmente as mudanças climáticas estão incorporadas em nossos modelos. Nas contas da PSR, sem levá-las em conta, a expansão futura poderá ser até 30% mais cara.