Análise: Crise energética global já se compara à do subprime, que se alastrou e trouxe efeitos duradouros

Análise: Crise energética global já se compara à do subprime, que se alastrou e trouxe efeitos duradouros

9 de setembro de 2022

Roberto Rockmann*

A escalada da crise de energia europeia ganha novos tons a cada dia. Enquanto ingleses e alemães despejam mais de US$ 200 bilhões em subsídios para congelar preços de residências, indústrias começam a fechar portas, com impacto considerável sobre cadeias como papel e celulose, siderurgia e alumínio. O preço da energia já estaria em US$ 400 o barril de petróleo.

Cerca de um em sete britânicos já está com suas contas atrasadas, segundo a “The Economist”, que também aponta que com base nos preços atuais do mercado futuro o gasto de residências e empresas com gás e eletricidade na Europa pode chegar a 1,4 trilhão de euros, sete vezes o gasto anual dos últimos anos. Ruma-se para o maior projeto de paralisação do mercado livre da história do planeta.

Assim como no subprime de 2008, os custos financeiros, os subsídios e o papel dos Tesouros em reestatizações e injeções de capital ainda são desconhecidos porque a crise está em andamento. Há três fatores que ditarão o tamanho desse impacto financeiro e político: a extensão da escassez de gás, novas estiagens – o que poderá prejudicar a geração de hidrelétricas – e o fator inverno. Provavelmente, ela custará trilhões de dólares, já que analistas preveem que essa escassez pode durar entre três e cinco invernos.

O impacto político também é difícil de mensurar. O governo polonês discute distribuir máscaras antigás para a população se proteger, caso muitos poloneses passem a buscar queimar lixo para se esquentarem no inverno. Manifestações na Alemanha estão marcadas para os próximos dias. Tudo isso ainda sem planos de racionamento em andamento.

Talvez esse incerto impacto político e eleições regionais sejam a principal razão de a Comissão Europeia ter lançado nesta quarta-feira (7) a redução da demanda de energia no horário de ponta como uma de suas principais ideias para driblar a crise atual. A Europa de hoje, porém, não se assemelha ao Brasil de 2021, quando poderia haver problemas para atender a ponta, mas com o Brasil de 2001, quando os reservatórios poderiam não ter água para rodar as turbinas.

A Europa terá de racionar. O remédio amargo poderá criar uma onda mundial de turbulências, em um momento em que o Banco Central Europeu elevou em 0,75 ponto percentual os juros na zona do euro, a maior alta desde 1999. Novas altas deverão ocorrer, já que a inflação flerta com 10% ao ano, índice jamais visto em meio século.

O Instituto Bruegel, um dos principais think tanks da Europa, lançou nesta semana um relatório sobre a crise atual. Nele aponta-se que a capitalização das 50 maiores empresas abertas de energia da Europa soma 1,3 trilhão de euros, 40% do Eurostoxx 50. Apesar do seu tamanho, essas empresas operam em um mercado extremamente interligado e têm interdependência para atender seu consumidor final. A gigante alemã RWE compra mais de 60% de sua energia de outras empresas. O risco de contágio existe. Vale à pena ler ou reler “Too big to fail”, do jornalista Andrew Ross Sork, sobre a crise do subprime.

E o Brasil?
As incertezas do outro lado do Atlântico terão impacto sobre o Brasil. Primeiro, os juros deverão subir na Europa e nos Estados Unidos, reduzindo a diferença com a taxa brasileira. Isso fará a Selic manter esse patamar por mais tempo que o previsto? Haverá pressões sobre combustíveis, já que a Europa poderá aumentar a queima de diesel, buscando alternativas ao gás russo que parou de ser exportado.

A inflação continuará pressionada no Brasil, como nos países desenvolvidos? Como ficarão as taxas de remuneração das debêntures incentivadas, que tinham desde 2017 se tornado um importante mecanismo de captação de recursos?

Os impactos poderão não se restringir à política econômica. A crise europeia coincide com um momento em que governo e empresas começam a discutir renovação de concessões de distribuição, geração e transmissão. Em distribuição, cerca de 60% do mercado está nessa condição. A crise terá impacto sobre isso? Conseguir-se-á incorporar cláusulas para a modernização do setor nesses contratos que forem renovados? Outorgas são factíveis em geração?

Hoje vive-se uma disputa de números em relação a um jabuti incluído na MP 1.118 que trata da extensão de 24 meses da corrida de ouro de renováveis. Um dos argumentos de eólicas e solares é de que esses dois anos a mais de prazo poderiam reduzir custo de investimento com um momento mais propício para se negociar equipamentos.

Mas nada no horizonte de hoje indica que isso pode ser de fato possível, uma vez que as cadeias globais de suprimento poderão ficar pressionadas por conta do cenário europeu, que poderá se arrastar por pelo menos três invernos.

O mercado de gás e GNL (gás natural liquefeito) deverá permanecer com cotações mundiais elevadas, com um grande comprador, a Europa. O gás do pré-sal se torna valioso. Petroleiras que já começam a desenhar projetos para escoar esse gás poderão redirecionar empreendimentos para exportação para atender o mercado europeu?

A gestão dos reservatórios das hidrelétricas no Brasil se torna ainda mais importante. Fazer a lição de casa interna é essencial para fortalecer o setor diante de incertezas mundiais crescentes. Omissão do Executivo e Centrão não fazem boa rima.

*Roberto Rockmann é escritor e jornalista. Coautor do livro “Curto-Circuito, quando o Brasil quase ficou às escuras” e produtor do podcast quinzenal “Giro Energia” sobre o setor elétrico. Organizou em 2018 o livro de 20 anos do mercado livre de energia elétrica, editado pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), além de vários outros livros e trabalhos premiados.

As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.