Térmica de Uruguaiana deve voltar a operar com gás argentino e sem intermédio da Petrobras

 

Leila Coimbra, da Agência iNFRA

A AES Uruguaiana, dona da termelétrica de mesmo nome, situada na fronteira entre o Brasil e a Argentina, negocia diretamente com o país vizinho a compra de gás natural para que a usina voltar a operar e gerar energia no mercado brasileiro, disseram fontes à Agência iNFRA.

A negociação de compra do insumo desta vez não conta com o intermédio da Petrobras, como nas vezes anteriores em que a usina entrou em funcionamento. Nas operações em que a Petrobras foi envolvida, a estatal foi responsável pela entrega do gás na Argentina, que por sua vez cobrava apenas pelo transporte. Dessa vez, tanto o transporte como a molécula são argentinos.

A térmica está em “hibernação” desde 2008 por conta de problemas de fornecimento do insumo para produzir energia elétrica. Desde então, operou por três vezes em caráter emergencial: em 2013, 2014 e 2015, por períodos de dois a três meses em cada ano.

Logística complicada
Nestas três ocasiões, o gás foi fornecido pela Petrobras, em uma logística complexa que envolveu uma série de empresas que intermediaram o transporte do gás até a usina.

Navios com GNL (gás natural liquefeito) foram afretados pela Petrobras no mercado internacional – com entrega na Bahia de Guanabara, no Rio de Janeiro – e se deslocaram até os terminais de regaseificação na Argentina, onde a molécula foi então novamente transformada do estado líquido para o gasoso.

A partir desta etapa, a Enarsa, empresa estatal argentina de gás, recebeu a commodity e por sua vez a injetou na malha de três companhias argentinas donas de gasodutos: TGS (Transportadora de Gás Del Sur); TGN (Transportadora de Gás Del Norte) e TGM (Transportadora de Gás Del Mercosul).

Ao ingressar no Brasil, o gás foi então levado pela TSB (Transportadora Sulbrasileira), dona da malha de transporte que atende a termelétrica de Uruguaiana, e que pertence à Petrobras e outros sócios.

Sulgás era a responsável
Mas a responsável por todos os contratos até a chegada à usina não estava a cargo da Petrobras, mas da Sulgás, que foi designada pelo governo brasileiro como a distribuidora responsável pela comercialização.

Todos esses custos: de transporte marítimo até a Argentina, regaseificação e transporte da molécula via gasodutos foram acrescentados ao preço final do GNL comprado originalmente pela Petrobras, assim como impostos pela internalização da commodity na Argentina.

CVU de R$ 922 o MWh
Isso encareceu a energia produzida pela da usina, que gerou apenas para a comercialização direta no mercado de curto prazo, onde os preços altos viabilizaram a operação. O CVU (custo variável unitário) da energia de Uruguaiana variou na época entre R$ 700 e R$ 922 o MWh.

Orientação do CMSE
O despacho de Uruguaiana no passado ocorreu por determinação do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico). Na época, Uruguaiana iniciou a geração com 164 MW e atingiu posteriormente 244 MW em ciclo combinado, aproveitando menos combustível e também vapor para a produção de energia.

Projeto original era gás da Argentina
O projeto original da UTE Uruguaiana previa somente o uso de gás argentino. A usina foi inaugurada em dezembro de 2000 e operou sem grandes problemas até 2004, quando então começou uma crise energética na Argentina.

O contrato de suprimento de gás, firmado com a Repsol/YFP, começou a ser descumprido a partir daí e foi totalmente rompido, unilateralmente pela YPF, em 2008. A partir de então, teve início uma disputa comercial internacional, mas a térmica ficou parada, gerando apenas nas vezes em que a Petrobras foi a fornecedora de GNL.

A versão da AES
Procurada pela reportagem, empresa mandou o seguinte comunicado, por email: “A AES Uruguaiana tem interesse em retomar operação, mas no momento não há nada de concreto para comunicar, inclusive em relação ao fornecimento de gás”.


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