iNFRADebate: Novo mercado de gás e sua competitividade no setor elétrico

Rachel E. Andalaft*

Considerando as dimensões continentais do Brasil, a estrutura de gasodutos em nosso país é menor do que a da Holanda. Isso explica em boa parte porque o gás natural sempre foi considerado uma commodity de segunda categoria, sendo reinjetado nos poços ou mesmo queimado.

Tudo indica que esse quadro vai mudar. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, aposta nos ganhos a serem alcançados por meio do gás natural. Com US$ 60 bilhões em investimentos estimados apenas para os primeiros quatro anos, o ministro se entusiasma ao compará-lo com o gás de xisto nos EUA. No entanto, o que mais nos diz a comparação entre o Brasil e os EUA na geração de energia a gás natural?

Uma nova matriz energética

A matriz energética brasileira já caminha para uma distribuição 51% hídrica e 28% eólica e solar. Dito isso, a flexibilidade do gás para atender variações na demanda energética assim como para atender a indústria – isto é, substituir a geração térmica a óleo – é o que torna esta alternativa atrativa aos olhos do setor.

Porém, falta buscar preços mais competitivos e chegar à metade dos atuais US$11 a US$ 13/MMBtu. Além disso, para que o potencial de exploração do pré-sal possa ser melhor comparado aos impactos do gás de xisto, devemos destacar que, apesar da tecnologia de fraturamento hidráulico (“fracking”) ser nova, a infraestrutura de gás norte-americana foi alvo de investimento nos últimos 80 anos.

Modismos à parte, não podemos nos furtar de olhar mais atentamente o exemplo dos EUA e perceber alguns fatos surpreendentes, mesmo depois de 15 anos de construção de usinas a gás em larga escala.

Olhando para o norte

Na realidade norte-americana de hoje já é mais barato contratar energia de fonte solar com armazenamento do que a geração a gás.

Nos últimos anos, os contratos de fornecimento de energia (PPA) de fonte solar alcançaram preços cada vez menores, conforme os painéis solares tornaram-se 30% mais baratos, impulsionados pela produção chinesa e oferta competitiva de crédito.

Apesar de esperada, a redução global nos preços da geração eólica e solar sempre encontrou resistência dos defensores da geração a gás, que apontavam para os possíveis custos de integração das fontes renováveis ao sistema elétrico.

Em 2016, o custo da energia solar já tinha alcançado os US$ 37/MWh, tornando a fonte competitiva quando comparada ao gás norte-americano (aproximadamente US$ 42/MWh). Entretanto, o que ninguém contava era com os ganhos tecnológicos incrementais que a energia distribuída receberia ao longo dos anos.

Hoje, o armazenamento de energia oferece flexibilidade para atender a demanda, graças aos ganhos em pesquisa e desenvolvimento advindos da indústria de veículos elétricos. Baterias desenvolvidas pela própria Tesla já estão sendo acopladas à rede elétrica, sendo acionadas conforme a demanda e funcionando também como estabilizadores de carga.

Consequentemente, não só usinas a óleo combustível mas também a gás estão sendo descomissionadas ou até mesmo preteridas. Além disso, mesmo em face dos ganhos de competitividade trazidos pela exploração do xisto, é inegável que um movimento por maiores exigências regulatórias está se espalhando pelos EUA.

Os estados da Califórnia, Michigan e Minnesota já adotam uma nova postura no que tange ao planejamento energético: maior consciência ambiental, estudos de viabilidade econômica e tributação de carbono são temas recorrentes. Porém, ambientalismo à parte, o grande argumento para substituição do gás por geração solar mais armazenamento é financeiro.

Em 2017, uma PPA de fonte solar e armazenamento foi firmada entre as empresas norte-americanas Tucson Electric Power e NextEra. O preço, de US$ 45/MWh, era equivalente ao de novas usinas a gás de ciclo combinado.

Poucos meses depois, a Xcel assinou uma PPA por um preço médio de US$ 36/MWh, mostrando como o armazenamento está conquistando novos espaços.

Atualmente nos EUA, sistemas de geração híbrida podem facilmente substituir 2/3 das turbinas a gás com baixo fator de capacidade. Ainda assim, essa informação não revela o que está por vir: nos próximos 20 anos, os preços das baterias já terão reduzido em aproximadamente 80%.

Olhando de uma perspectiva macro, não obstante a abundância de gás natural, os EUA já possuem 2,5 GWh de geração por projetos renováveis complementados por armazenamento, dando-lhe a liderança global ainda que, ao que tudo indica, a concorrência chinesa não tardará em desafiar esta posição.

Ligando os gasodutos

Voltando ao mercado brasileiro, os setores de transporte e distribuição de gás são os mais promissores. A distribuição em si é uma atribuição dos estados, sendo que a Petrobras possui participações relevantes na maioria deles. Dado o recente processo antitruste conduzido pelo Cade, é de se esperar que a estatal seja forçada a se desfazer de seus ativos de gás, reduzindo sua participação de mercado para 50%.

Isso acompanharia o plano da empresa de vender US$ 27 bilhões em ativos, tanto para reduzir a sua alavancagem como também para prover recursos para as atividades mais lucrativas de exploração e produção (“upstream”). Atualmente, a Petrobras tenta emplacar junto ao governo um plano de abertura gradual do mercado, a ser executado em quatro anos.

Quando nos deparamos com os fatores que determinam o sucesso do gás natural no Brasil, não resta dúvida de que há espaço na economia para um mercado moderno e agregador de valor a partir desse combustível. No entanto, para que haja avanços, as térmicas que compensam as variações do regime hídrico deverão ser substituídas por opções mais eficientes e limpas.

*Rachel Andalaft é sócia-fundadora da REA Consult e gestora internacional junto a investidores institucionais.
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