Norman Anderson, da CG/LA: O risco para os investidores não está bem definido

NORMAN ANDERSON,
CEO da CG/LA Infraestructure

“É preciso entender melhor o novo paradigma dos papéis do setor público e do setor privado na infraestrutura”

O americano Norman Anderson tem viajado o mundo nos últimos 30 anos para tentar conectar investidores a projetos no setor de infraestrutura e está impressionado com a lista de grandes empreendimentos que o Brasil tem a apresentar nos próximos anos. “Uh, são R$ 140 bilhões. É uma lista robusta”, afirma o CEO da CG/LA Infraestructure em entrevista à Agência iNFRA.

Por telefone, de Nova Iorque, Normam explica em seu bom português que os governos vão precisar mudar a forma como lidam com a infraestrutura para que as companhias possam ter menos riscos e, de fato, entrem nos projetos do setor, principalmente os greenfield (projetos novos, que ainda vão ser construídos).

“O problema é entender melhor o novo paradigma dos papéis do setor público e do setor privado”, afirmou Anderson.

Conselheiro do Fórum Econômico Mundial, Anderson propõe uma nova forma de agir para  o BNDES no país. Para ele, o banco deveria ser uma espécie de planejador estratégico de longo prazo e garante que há grandes fundos interessados em investimentos que virão para o 15º Fórum Latino Americano Brasileiro de Liderança em Infraestrutura, que será promovido pela CG/LA, em setembro, em São Paulo.

 

 

Como o Brasil está sendo visto nesse momento por investidores de fora?

Acho que o momento, como falamos, é muito interessante para o Brasil. Está começando a crescer de novo a economia. Tem problemas políticos, mas esse crescimento incipiente da economia é muito interessante. Há uma demanda reprimida de infraestrutura muito forte. Na lista de 50 projetos de infraestrutura mais importantes tem um valor que seria, uh, de quase R$ 140 bilhões. É uma lista robusta.

 

muitos lugares no mundo que precisam de tantas coisas como aqui?

Acho que realmente o Brasil oferece oportunidade quase única. Outras oportunidades desse tamanho seriam na Indonésia e Índia. África do Sul nem tem esse porte. E o Brasil tem uma vantagem, uma economia de agricultura e industrial também. Está situado pertinho dos Estados Unidos e da Europa. Acho que são bem interessante as perspectivas. Estava conversando com um investidor canadense. Ele tem uma visão muito interessante, agradável sobre o Brasil e as oportunidades. Vamos organizar no evento que estamos produzindo no Brasil um painel só com investidores canadenses. Eles estão olhando com ponto de vista do mercado. Eles estão muito ativos no mercado brasileiro.

 

Eles estão comprando ativos já existentes, em projetos brownfield [projetos já existentes, que geram receitas imediatas]. Como eles veem projetos greenfield no Brasil? Qual o apetite deles para isso?

Todo mundo fala que no mundo inteiro tem muito dinheiro e que se está procurando investir esse dinheiro em infraestrutura. Mas, quando se faz uma análise desses fundos, eles em maioria olham para projetos bronwfield.Estamos fazendo uma pesquisa para o Ministério da Fazenda, junto com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), olhando e identificando fundos que têm interesse em projetos greenfield e bronwfield. E 90% dos investidores têm mais interesse em bronwfield. Seria muito interessante que o governo brasileiro pense em como seria possível identificar e mitigar os riscos para os investidores que realmente têm interesse nessa parte degreenfield.

 

E quais são os riscos que mais assustam esse tipo de investidor?

Você tem o problema que tem que achar bons parceiros. Ninguém quer comprar um problema com a Lava Jato. Tem que fazer uma duo diligencemuito importante. A segunda parte é achar um parceiro de engenharia de construção que tenha aporte suficiente para fazer o projeto. São duas coisas bem importantes. A parte política nem está causando tantos problemas, porque o jeito da economia está mais para cima.

 

No caso do Brasil, fala-se muito em risco jurídico, regulatório. Isso de alguma maneira impacta na decisão dos investidores?

O risco regulatório é um problema em todo o mundo. Nos EUA, se você quer tocar um projeto de transportes, leva nove anos e meio para passar por todas as barreiras regulatórias. Isso indica uma falta de confiança entre o setor público e o setor privado. E também da sociedade civil. É algo que tem que tocar forte nele. Como seria possível recuperar a imagem da infraestrutura? Temos muitas regulamentações e tudo isso indica problema de confiança, falta de definição entre as responsabilidades do setor público e do setor privado. Estamos fazendo uma pesquisa com o Ipsos para diagnosticar essa enfermidade no Brasil.

 

Algum lugar seria um benchmark em que esse caminho está em via de se resolver e não se leve tanto tempo?

(Risos) É interessante. Eu falo talvez no Reino Unido, ou Canadá. Mas quando você vai para lá eles dizem que é besteira. Também é um desastre lá.

 

Todos reclamam?

Mudou foi o jogo lá. Antes, só o setor público investia nos projetos de infraestrutura. Agora, o setor privado tem que investir muito mais fortemente. E o setor público tem problemas para fazer esse ajuste e entender o papel dele, de cuidar do bem público. E o setor privado está sempre muito preocupado porque acham que o setor público quer que eles fiquem com todo o risco, o que eles dizem não ser justo. Eles não podem por causa dos problemas que têm de balanço. Você tem esse problema em todo o mundo, onde o setor privado está tentando fazer infraestrutura. Pessoalmente, acho que o problema é de modelo.

 

Tem solução?

A solução não pode é ser retirar, encurtar as regras. O problema é entender melhor o paradigma novo dos papéis do setor público e do setor privado. Ninguém está conseguindo solucionar esse problema no mundo agora. Cada país acha que ele é um desastre e tem algum lugar que está funcionando. Mas todos têm as mesmas queixas.

 

E como fica? Porque os orçamentos públicos estão cada vez mais apertados para investimento, pressionados por gastos com saúde, aposentadoria. Como vai solucionar a infraestrutura se não há dinheiro público para ela?

É um problema que estamos tentando entender um pouco melhor e redesenhar a relação entre o setor público e privado. Entender o que deve fazer o setor público. Antes, o setor público tocava tudo, contratos, gerenciava tudo. Agora, o setor público tem que ter um papel muito mais estratégico. Mas não sei como responder bem a essa pergunta. O setor privado parece que vai ter que fazer os investimentos na infraestrutura que antes era públicos, sem as garantias necessárias e com todo mundo achando que setor privado está ganhando um monte de dinheiro.

 

E não está?

É algo interessante como há falta de definição das regras do jogo. É um problema. De fato não está e tem muito risco. Todos pensam que eles têm muito dinheiro e o risco não é nada para o setor privado. Mas o risco não está definido. É bem arbitrário. Hoje estava lendo de uma empresa americana que perdeu 400 milhões de dólares em um só projeto. Vai à falência. Eles organizaram um contrato de preço fixo e não funcionou. O risco do setor público coloca no setor privado, achando que é pouco, é muito e indefinido. E esse é o maior problema. Talvez precise de algum seguro, com o setor privado provendo um teto para os riscos do setor privado.

 

No Brasil especificamente temos um gargalo que é o financiamento, com praticamente só o BNDES financiando. O governo está tentando mudar isso. É possível financiar grandes projetos aqui? Há outras soluções que não sejam só pelo BNDES?

Sempre gostei do BNDES. Sempre achei seus executivos profissionais, fortes e firmes. O banco tem um papel forte e positivo na economia brasileira, mas tem que abrir um pouquinho o mercado para trazer novos players como fundos de pensão etc. A direção agora é interessante. O Canadá está desenvolvendo um banco de investimentos e identificando projetos que outros jogadores não vão poder tocar e investir neles, em projetos de municípios, estados, que ficam fora da economia normal. Esse foi um pouco o papel do BNDES, porque quase tudo da economia brasileira ficava fora das regras do mercado. Agora há muitos projetos, fundos, bancos que têm a capacidade de mexer nesses investimentos. Seria interessante agora que o BNDES desenvolvesse um papel mais estratégico, catalisador, na economia brasileira, gerenciando o desenvolvimento, com um papel mais criativo e estratégico. Precisa de um corpo de profissionais como o do BNDES para animar essa capacidade dentro do país. EUA não tem isso. Mas precisa desse corpo de executivos de engenharia, economia, financeira que estejam cuidando da infraestrutura, fora dos ciclos políticos.Precisa desenvolver estudos para ter um pipeline de projetos para daqui a 10, 15 anos e tem que cuidar da performance desses projetos por 15, 30 anos. O papel do banco tem que evoluir, mas o papel dos executivos do banco tem que continuar forte, olhando para o futuro.

 

O calendário eleitoral aqui é um fator de dificuldade para os projetos de infraestrutura, com quatro anos, fazendo acelerar as tomadas de decisão. Como o senhor vê a chegada do PPI (Programa de Parceria de Investimentos) nesse sentido?

Acho que foi muito bom. Os profissionais são muito bons e o enfoque de transparência deles é muito importante. Outra coisa que está fazendo o Brasil, com base num estudo que fizemos com o BCG, é escolher projetos que vão ter os benefícios maximizados para a população. Ao invés de só pensar em projetos que vão ter retorno financeiro, você tem que olhar para o futuro, medir o futuro. Quantos empregos vão ser desenvolvidos? Quantas oportunidades, negócios desenvolvidos ao longo da vida do projeto de infraestrutura? Tem que ter uma perspectiva de 30, 40 anos e a produtividade do investimento tem que ser analisada. O PPI está focando nisso e desenvolvendo uma perspectiva de Brasil para 30, 40 anos no futuro.

 

Sua visão sobre o Brasil parece positiva. O que está faltando então para que consigamos ter êxito em leilões mais complexos como de ferrovias, rodovias e começar as obras? Qual é o último gatilho a ser apertado?

Quando você vai fazer um programa de infraestrutura, todo mundo sempre fala: qual seria a coisa que está faltando? Acho que é como desenhar um avião. Você tem um motor, mas tem que pensar também nas asas. Se olhar a asa, tem que olhar o piloto etc. Seria muito importante o Brasil começar a ter uma conversa nacional sobre a infraestrutura que o Brasil precisa para o futuro. E falo isso também para os EUA e outros países. Estamos entrando em tempo de tecnologia nova. Quem está pensando em fazer investimentos fortes em infraestrutura, precisa identificar onde vai investir, como vai investir, o papel do setor público, do setor privado, dos fundos de fora. E, principalmente, quem são as lideranças. Estava perguntando na minha ida ao Brasil: quem seriam os cinco líderes em infraestrutura que você nomearia. Ninguém me deu uma resposta. Isso é curioso, porque indica uma mudança de modelo. Acho que o Brasil também precisa identificar as empresas que vão surgir depois da Lava Jato e a forma delas, como elas vão reconstruir o Brasil nos próximos anos. Falando de ferrovias, os fundos que vão investir nesses projetos vão precisar de parceiros de engenharia, de construção de nível mundial, para tocar esses projetos no Brasil. Tem que desenvolver um grupo de campeões locais para atender esse mercado.

 

Aqui você ainda não conseguiu solucionar os problemas das empresas em relação à leniência. Isso de alguma maneira pode vir a ser um entrave quando os leilões começarem? Como é trazer uma empresa nova para tocar uma grande obra num outro país?

Essa parte de indecisão é sempre um problema. Vai ter que decidir que mercado de infraestrutura o Brasil vai querer ter. Se vai ser muito ativo e dinâmico, com muitas empresas pequenas, ou se vão voltar a ter empresas grandes, quatro, cinco, que dominam o mercado. Com a entrada forte do mercado de tecnologia no mercado de infraestrutura, seria importante ter empresas medianas, com capacidade de inovação. Acho que elas mais e mais vão ter papel forte nas economias da infraestrutura. Mas também precisam de umas empresas grandes, campeões, para que compitam entre elas e desenvolvem as capacidades e bons serviços.

 

Qual é a importância de um evento como o 15º Fórum Latino-Americano para país num momento como esse?

Estava no Brasil na semana passada e estão todos muito entusiasmados e otimistas com o futuro. Tem a política, mas tem a economia que está se reativando. Nosso propósito é servir como plataforma para juntar projetos prioritários no Brasil com empresas locais que estão querendo tocar com as de fora, fundos etc, que precisam achar oportunidades de negócios para investir. Estamos tentando juntar projetos, capacidades locais e fundos de fora, catalisando todo esse processo, utilizando ainda tecnologias novas, que vão transformar a infraestrutura no futuro.

 

Quantos investidores de fora o senhor acha que vai poder trazer para o evento?

Vamos ter mais de 500 executivos e pelo menos 150 a 200 de fundos de fora. Há fundos procurando oportunidades no setor de água, outros de portos, outros de aeroportos, como já vieram. Outros querem ferrovia, energia. Estamos realmente ganhando essa plataforma e a parte mais atrativa para eles são os projetos que vão ser apresentados como oportunidades para daqui a 12 meses.


Informações deste texto foram publicadas antes pelo Serviço de Notícias da Agência iNFRA. Esse produto diário é exclusivo assinantes. Para ficar bem informado, sabendo antes as principais notícias do mercado de infraestrutura, peça para experimentar os serviços exclusivos para assinantes da Agência iNFRA por este link: http://www.agenciainfra.com/faleconosco/ .