“Aviação só pode crescer no Brasil”, diz presidente da Inframérica

DANIEL KETCHIBACHIAN,
Diretor da Inframérica

“ARGENTINA E BRASIL SÃO PAÍSES EM QUE O DIA A DIA NÃO É TÃO TEÓRICO. NÃO ESTÁ TUDO ESCRITO”

O argentino Daniel Ketchibachian, 35 anos, chegou há cinco anos ao Brasil para cumprir uma complexa missão: ajudar a construir, em menos de dois anos, um aeroporto praticamente novo, sem paralisar as operações aeroportuárias na capital do país vizinho.

A missão foi cumprida e transformou o Aeroporto Internacional de Brasília num case de sucesso na época da Copa, em 2014, levando Daniel assumir, no ano seguinte, o cargo de presidente da Inframérica, empresa da argentina da Argentina Corporacion América, que administra os aeroportos de Brasília e de Natal.

Para ele, a qualidade dos funcionários brasileiros e a experiência trazida da empresa em um país latino-americano foram fundamentais para que tudo funcionasse.

“A Argentina e o Brasil são países em que o dia a dia não é tão teórico, não está tudo escrito. Você vai fazendo o caminho quando vai percorrendo”, disse Daniel em entrevista à
Agência iNFRA.

O desafio do administrador, agora, é novamente contra o tempo: a crise no país está atrasando um investimento não obrigatório de quase R$ 1 bilhão da concessionária para criar o primeiro aeroporto-cidade do Brasil. Segundo ele, as aprovações estão andando lentamente. Mesmo com a crise, ele acredita no contínuo crescimento da aviação no país.

“A aviação do país só pode continuar crescendo. O Brasil ainda está longe do que deveria estar em número de viagens por habitantes”, disse lembrando que, para isso, é preciso aumentar os investimentos e incentivar a concorrência.

AGÊNCIA INFRA – Havia muita desconfiança nas primeiras concessões em relação às empresas que venceram os leilões dos aeroportos. A Inframérica teve que levantar um novo aeroporto em menos de dois anos e conseguiu. A que atribuiu tudo ter funcionado?
Daniel Ketchibachian – O desafio foi ainda maior que isso. Fizemos dois aeroportos em 18 meses, em Natal e em Brasília. Na capital, o desafio era ainda maior porque fizemos com o aeroporto funcionando. Acredito que tínhamos um bom planejamento. Foi fundamental o layout que definiu qual era a melhor proposta de aeroporto.

Quanto tempo antes do início do processo de licitação vocês já estavam olhando esse negócio?
Um ano antes do início da licitação. Não foi pouco tempo para planejar dois aeroportos. Na época, também foi importante a qualidade dos profissionais. Criticavam muito a Infraero, mas quando a gente chegou, trouxemos 20 a 30 pessoas para uma empresa que tem mais de mil empregados. Isso funcionou pela qualidade dos profissionais que o país tem.

Mas o prazo era curto. O Brasil fazia tudo com pressa e correndo. O quanto isso atrapalha a qualidade e o desenvolvimento de um projeto?
O que atrapalhou, na época, foi que tivemos um custo maior. Era muita obra acontecendo na época da Copa, ninguém conseguia profissionais, empresas. Para fazer mais rápido, você acaba tendo um custo maior, mas que na operação acaba se refazendo. Tínhamos multas muito grandes por não atingir os prazos. Por outro lado, também pudemos resolver mais rápido todos os problemas burocráticos por causa do prazo. Todos tinham vontade de resolver muito rápido qualquer problema que acontecia. Todos tinham o objetivo de ter a estrutura pronta para a Copa do Mundo.

Trouxe um prejuízo operacional, mas também andou mais rápido?
Para nós também foi positivo para poder antecipar esses prazos que todos conhecem da burocracia.

O que ficou de lição ter chegado num momento tão crítico?
O aprendizado que trouxemos da Argentina foi fundamental. A Argentina e o Brasil são países em que o dia a dia não é tão teórico, não está tudo escrito. Você vai fazendo o caminho quando vai percorrendo. Os profissionais que trouxemos para lidar com as instituições já eram acostumados a não ter um processo padrão. Tudo é conversado, é preciso diálogo. Imagino que para uma empresa de um país mais padronizado pode ser mais difícil de se adaptar. Mas já tínhamos algo parecido na Argentina e isso foi importante.

E é mais fácil para vocês se adaptarem quando vão para outros países em que a regra está mais escrita, como você diz?
Sem dúvida. Sabíamos que íamos chegar e que um novo cenário seria construído. Eram as primeiras concessões aeroportuárias. Não era a quinta ou sexta, era a primeira. Muita coisa era nova, como a SAC (Secretaria de Aviação Civil, criada apenas em 2011), sem muita experiência. Fomos construindo o dia a dia juntos. Sabíamos que íamos chegar e não teríamos um roteiro. Também trouxemos muito conhecimento. O layout que trouxemos para Brasília não era o da obra que seria feita. Mudamos tudo, trazendo nossa experiência, e fomos bem recebidos. O sucesso desse aeroporto tem muito a ver em termos conseguido demonstrar que o layout com dois fingers era superior ao do projeto existente.

Do balanço do período, pode-se dizer que ainda há arestas a serem aparadas, como gastos não previstos, contestações da empresa de aspectos da concessão. Como vocês tratam a continuidade do contrato atualmente?
Como em qualquer contrato de 30 anos há coisas que acontecem e que não acontecem. Vendo os contratos, o poder concedente tinha muitas obrigações. Muitas cumpridas; outras, não. O contrato permite o reequilíbrio e apresentamos essas diferenças. Estamos apresentando as diferenças e pedindo o reequilíbrio.

E como está o tratamento disso?
Há pouco tempo aconteceu algo positivo, que foi a Medida Provisória 752. Onde não houver acordo com a ANAC, vamos poder escolher o caminho da arbitragem. Acho que esse será um caminho mais justo. O caminho judicial é mais demorado, e a gente fica um pouco preocupado com os tempos. Estamos analisando para ver como vai ser e imaginamos que isso não vai demorar mais que um ano.

Vocês pretendem se utilizar do decreto de reprogramação das outorgas dos aeroportos?
A medida tem um mês. Estamos trabalhando internamente para achar caminhos para aproveitar essas medidas. Não temos um cenário certo até o fim do ano. Estamos trabalhando para isso e estudando a medida para saber como aproveitar.

No caso dos dois aeroportos, Brasília e Natal, eles estão em situação de operação no azul, com as projeções sendo alcançadas?
A gestão aeroportuária é um negócio de longo prazo. Você não vai pegar um aeroporto e com quatro a cinco anos distribuir dividendos. Isso não acontece. Um aeroporto precisa de investimentos expressivos; nos primeiros anos você coloca muito dinheiro. Com certeza a realidade foi pior que as projeções que tínhamos. O país entrou em crise um ano depois do início da operação. Em 2013, já tivemos a primeira crise. Isso é muito ruim para o negócio. Estamos passando por um período difícil, mas trabalhamos para conseguir ter uma rentabilidade.

Aconteceu com vocês também na Argentina, quando assumiram as concessões dos aeroportos do país na década de 1990?
Sim. Na época, caímos 76% dos passageiros. Veja a diferença. O dólar saiu de um para um para 3 pesos. Depois, variou mais ainda. O governo renegociou todos os contratos do país: de aluguel, de trabalho, tudo.

Aqui a média de redução de passageiros foi de quanto?
Mais ou menos 15%. Em Brasília, perdemos mais ou menos 9%. É uma queda significativa, mas acredito que até o fim do ano vamos retomar os passageiros. Os sinais vindos do mercado são positivos. As aéreas estão começando a trazer mais voos, isso está indo numa onda positiva. Pelo menos não se fala mais em cortar voos. A conversa agora já mudou.

O governo tem vários planos de desenvolvimento da aviação, mas tem problemas de orçamento, de falta de apoio no Congresso para aprovar leis. Quanto o atraso nas definições dificulta a retomada do setor?
Com certeza isso dificulta. As coisas demoram e no meio de uma crise o que mais se precisa é apoio e de medidas urgentes. O governo está fazendo todo o possível. Vejo funcionários preocupados com a situação, tentando colaborar. Mas, no momento do país, é lógico que as coisas demoram um pouco mais e não andam como o mercado gostaria, trazendo prejuízos.

Como estão os planos de investimentos para a nova etapa do aeroporto? Ainda está na visão de vocês ou o atraso está ameaçando, já que o tempo de concessão não será modificado?
De fato, nosso investimento na reformulação completa do aeroporto não é mandatório. Hoje o mercado financeiro está tomando maiores precauções, demorando a fazer as análises sobre liberação de financiamentos. O que demorava dois meses, agora demora um ano. Essa demora afeta, com o mercado mais lento, aprovações mais lentas. Mas o projeto avançou muito e aproveitamos esse tempo para melhorar ainda mais o projeto e ele ficou fantástico.

Como é o projeto?
Queremos introduzir no Brasil o conceito de aeroporto-cidade. Vamos construir trezentos mil metros quadrados para novas áreas de shopping, centro de convenções, hotéis. São pelo menos 290 lojas e seis mil vagas de estacionamento, além de ampliar o terminal internacional, com estimativa de R$ 900 milhões em investimentos.

Quando deve começar?
Acho que até o final do ano conseguimos estruturar o financiamento e as aprovações. Está tudo correndo bem. Lento, mas correndo bem. Todos apoiam muito, porque adoram o projeto.  O aeroporto é muito elogiado, não somente pelos passageiros. Nossa previsão é fazer tudo nos próximos sete anos.

Que motivos levaram a empresa a não entrar nos novos leilões de aeroportos desse ano? A empresa pode entrar em rodadas posteriores?
Estamos acabando de estruturar esse grande investimento em Brasília. Achamos um pouco apressado continuar crescendo quando temos que fazer um grande investimento na capital. Ele requer melhorar a nossas negociações com os bancos, BNDES e Caixa. Consideramos que esse investimento é o mais importante nesse momento. Também não vimos nesses aeroportos uma grande oportunidade de investimentos como vimos em Brasília na época.

E sobre novas rodadas?
Estamos analisando novas oportunidades que o governo está trabalhando e vamos trabalhar forte para conseguir ser o principal investidor. Mas acreditamos que isso deve acontecer no ano que vem e vamos trabalhar muito forte para participar.

Cada unidade então precisa ter uma estratégia específica, como foi em Brasília onde a estratégia era ser um grande hub de voos da América Latina?
Exatamente. Natal foi nosso primeiro aeroporto, e a estratégia era entrar no Brasil. Brasília sempre foi por ser um hub estratégico. Sempre consideramos que o aeroporto será o maior hub da América Latina. Não temos a menor dúvida disso. Estamos, por isso, fazendo esse investimento grande no aeroporto. Os próximos aeroportos que virão, vamos analisar estrategicamente cada aeroporto, como ele trabalha, como está na estratégia da Inframérica.

Como você vê o futuro da nossa aviação em relação ao mercado e as projeções de crescimento para esse setor?
Temos trabalhos com consultorias internacionais que mostram que a aviação do país só pode continuar crescendo. O Brasil ainda está longe do que deveria estar em número de viagens por habitantes, por ser um país continental. Precisamos, no entanto, da promoção de novos aeroportos, aeroportos regionais, para que mais passageiros possam viajar. Também é preciso que tenhamos passagens aéreas mais econômicas, com a maior concorrência entre as aéreas. É fundamental desenvolver um mercado aeronáutico para o desenvolvimento do país. A longo prazo, com certeza, a aviação vai continuar crescendo porque ainda está longe do seu potencial e isso pode voltar a ocorrer a taxas elevadas.

E o que é necessário fazer para alcançamos isso?
É preciso continuar a incentivar essa indústria. Penso que as medidas tomadas recentemente pelo governo vão ajudar. A abertura ao capital estrangeiro das empresas aéreas também será uma medida importante. Mas precisamos mesmo é da política de aeroportos regionais. Isso vai ajudar muito. Sabemos que o governo está trabalhando muito para que isso aconteça. Além disso, acho que é preciso continuar concessionando aeroportos. Quando chegamos em Brasília, tivemos um crescimento de quase 35%. As empresas não podiam operar completamente aqui. Os aviões tinham que chegar no aeroporto de dia e sair de noite porque não havia espaço no pátio. Isso para a aérea é custo. Fizemos os investimentos e toda a demanda reprimida veio logo no ano seguinte. Os investimentos que são feitos pelas concessionárias são fundamentais.

Então não há risco de paralisar os investimentos?
Tem que haver a continuidade. O mercado só tende a crescer, e os investimentos são fundamentais para que isso ocorra nas infraestruturas aeroportuárias principais, nos aeroportos regionais. E, além disso, precisa continuar promovendo o Brasil no mundo para atrair uma maior quantidade de turistas. Conversei com o ministro do Turismo do Brasil para me colocar à disposição para fazer contatos com os ministérios do turismo da Argentina e do Uruguai. Acho que é preciso incentivar a ida de turistas brasileiros para o Mercosul e a vinda dos países vizinhos para cá. É um trabalho fácil de fazer, precisa de incentivos para que possa acontecer.

Há crítica no Brasil de que ficamos de costas para os nossos vizinhos e acabamos não aproveitando todo o nosso potencial. Você que é argentino vê dessa maneira?
Acho que é das duas partes, não sinto isso só do Brasil. Os dois países têm boas intenções de se complementar, porque são países complementares. Um com praia, outro com neve. Continuar a construir aeroporto é positivo porque traz mais gente e incentiva a vinda de mais turistas. É isso que temos que fazer não só para o turismo entre os países, mas também para trazer pessoas do exterior.

A vinda para o Brasil, olhando cinco anos depois, ainda é uma boa aposta da empresa?
Com certeza. Estamos conformes com a nossa participação aqui. Queremos continuar crescendo. Lógico que estamos numa crise e ninguém lucra com isso, mas esperamos ficar melhor. É uma aposta de longo prazo. O Brasil vai ter muita oportunidade, assim como teve no passado. E, nesse momento, a gente vai ser um dos principais jogadores, e vamos nos aproveitar dessa situação. Todo o trabalho e as dificuldades que estamos tendo, com certeza, no futuro serão valores agregados para podermos concorrer em outros aeroportos. O Brasil faz total sentido em nossa estratégia. Estamos em sete países, e a maioria está nas Américas. Faz muito sentido para a nossa malha no mundo.