Cenário de chuvas muda e expectativa é de nova explosão de preços de energia

Leila Coimbra, da Agência iNFRA

Houve uma mudança brusca no cenário hidrológico nacional nas últimas semanas. Depois de um período de chuvas intensas nos meses de outubro e novembro, veio um período de seca desde o fim do ano passado.

Agora, a expectativa é um mês de janeiro com chuvas abaixo da média, e os reservatórios do Sudeste, com apenas 28% de sua capacidade, não deverão ter a recuperação esperada no período chuvoso. Diante disso, é provável uma nova explosão dos preços no mercado de curto prazo, fazendo com que 2019 seja mais parecido com 2018 do que o imaginado anteriormente.

Alerta no CMSE
O novo cenário, mais pessimista, será apresentado nesta quinta-feira (10) em reunião do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico). Para alguns especialistas consultados, será preciso ligar o parque térmico antes do previsto, cuja geração é mais cara, para preservar os reservatórios. A decisão pode ser tomada hoje.

Segundo o presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), Reive Barros, a decisão de ligar térmicas agora seria cedo. “É preocupante porque os reservatórios do Sudeste estão com 28% da capacidade, e a previsão é de um janeiro perdido [em termos de chuvas]. Mas ainda estamos na metade do período chuvoso”, disse Reive à Agência iNFRA.

Sem otimismo
Para Edvaldo Santana, presidente da Abrace (Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e Consumidores Livres), o cenário para 2019 deixou de ser tão otimista. “Não vai ser um ano tão confortável em termos de preços como se previa antes”.

Segundo Santana, os meses de janeiro, fevereiro e março respondem por mais de 60% do período chuvoso e, mesmo com o mês de janeiro “perdido”, ainda é possível que ocorra alguma precipitação relevante mais adiante. Apesar disso, é difícil, na avaliação dele, que chova o suficiente para trazer “folga” ao sistema.

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“Para chegar 51% [nível mínimo confortável dos reservatórios do Sudeste] até o fim de fevereiro, falta muita chuva. É cedo para fazer previsões concretas, mas será caro. Os preços provavelmente serão próximos aos de 2018”, disse o presidente da Abrace, que a partir de março assume novas funções como vice-presidente da Electra Energy, uma comercializadora de energia.

Curva de preços
Na primeira semana de dezembro os valores do MWh (megawatt-hora) estavam em R$ 59 na CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). Mas, desde então, não pararam de subir, chegando à faixa de R$ 88 na última semana do ano passado. Depois disso, na primeira semana de janeiro, bateram na casa dos R$ 140. No Nordeste, dobrou da primeira para a segunda semana de janeiro: de R$ 53 para R$ 103 o MWh.

Preço no teto por 3 meses
Para alguns especialistas, o PLD (preço de liquidação de diferenças) pode atingir o teto durante três meses ao longo de 2019. Para outros, isso é pura especulação. Alguns afirmam que muitas comercializadoras estão “compradas”, e que, “ao se rodar os modelos computacionais para 2019, não se chegará a valores altos, o que poderia gerar prejuízos”.

Segundo uma fonte especializada em hidrologia e preços, que preferiu não se identificar, existe uma tendência de bloqueio climático às chuvas, que irá durar até o dia 23 de janeiro. Além disso, ocorreram outros itens inesperados na formação de preços: uma mudança do “DEC do Newave” que irá aumentar de 15% a 20% os valores da energia, além dos limites impostos à geração de Belo Monte. “A previsão é a de que os preços atuais não caiam em fevereiro. Ao contrário: a tendência é aumentar, em pleno período chuvoso”, disse a fonte.

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El Niño
Um outro fator a ser considerado é a formação do fenômeno “El Niño”, que enfraquece o regime de chuvas do Sudeste e aumenta na região Sul do país. “Isso pode trazer uma geração forte para Itaipu, por exemplo, mas não recupera os reservatórios do Sudeste, os mais necessários para garantir a geração hídrica média do sistema interligado”, disse a fonte.

Mais 5 ou 6 GW
Para o presidente da PSR Consultoria, Luiz Barroso, ainda é muito cedo para bater o martelo em relação aos preços para 2019, porque existem muitas incertezas ao longo do ano.

“É preciso muita análise de risco nas decisões comercias. É importante considerar que haverá uma nova capacidade de geração de 5 a 6 GW [gigawatts]. A combinação de como serão as incertezas a respeito da demanda, e da hidrologia, além da nova capacidade, é que vão definir como será comercialmente o ano”, disse Barroso.


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