Associação defende construção de usina nuclear no Nordeste

Lucas Santin, da Agência iNFRA

O setor de energia nuclear está otimista: as expectativas são de retomada dos investimentos na área, com a conclusão da usina de Angra 3 e a possibilidade da construção de novas unidades de geração nuclear no Brasil, já que o atual ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, defende publicamente essa fonte energética.

Espera-se um novo ciclo virtuoso em toda a cadeia produtiva, desde a retomada da mineração de urânio – na mina de Caetité, que estava parada – até a fabricação de máquinas e equipamentos e a formação de futura mão de obra, segundo o presidente da Abdan (Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares), Celso Cunha.

Cunha defende que seja erguida uma usina nuclear na região Nordeste: “Eu acho que é muito razoável que se tenha uma usina no Nordeste agora. Isso porque os reservatórios do Nordeste estão muito baixos há muitos anos. A região vem sendo sustentada, quase 80%, por energia que é gerada por matriz solar e eólica”, disse ele em entrevista à Agência iNFRA. A seguir, os principais trechos da conversa:

Como a cadeia de energia nuclear vê este novo momento? Estão otimistas com os próximos anos de governo?
Mais do que otimistas. Estamos chegando à convicção de que Angra 3 será concluída. Falta pouco para isso. E há um detalhe importante: se para acabar a obra de Angra 3 precisa de R$ 15 bilhões, o custo, se não acabar, é de R$ 12 bilhões. Esse é o valor que custará para desmontar e pagar os fornecedores. Ou seja, o país vai jogar fora R$ 12 bilhões. É uma discussão que, a meu ver, já está vencida.

Ao destravar as obras de Angra 3, estou falando em investimentos muito grandes: R$ 15 bilhões para terminar a usina. Com isso, você vai precisar de combustível, a INB (Indústrias Nucleares do Brasil) vai poder aumentar (a produção) e a cadeia vai aumentando como um todo.

E a Eletronuclear, no ano passado, conseguiu avançar na discussão da sua dívida e, principalmente, na questão da tarifa de energia elétrica, que vai acontecer em 2026, quando inaugurar a usina de Angra 3. E isso foi um primeiro passo para destravar as obras. O novo governo vai dar continuidade a isso.

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, é um defensor da energia nuclear. Diante disso, há possibilidade de novas usinas no Brasil?
Eu acho que é muito razoável que se tenha uma usina nuclear no Nordeste agora. Isso porque os reservatórios do Nordeste estão muito baixos há muitos anos. A região vem sendo sustentada, quase 80%, por energia que é gerada por matriz solar e eólica.
Neste ano, isso gerou um gasto adicional de quase R$ 1,2 bilhão, porque as térmicas – a gás, principalmente – tiveram que suportar essas oscilações. Então, a gente precisa de energia de base no Nordeste. A melhor coisa seria partirmos para a construção de uma usina nuclear nos próximos anos. Isso daria uma estabilidade importante no futuro para a região.

Por que a construção de uma usina nuclear na região Nordeste seria o ideal?
O mundo, como um todo, está olhando as usinas nucleares como uma grande saída, porque elas praticamente não poluem nada. É uma das menores emissões dos gases do efeito estufa

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Agora, vamos discutir sem preconceitos. As pessoas falam sem entender e comparam coisas que não são comparáveis. O país vive um problema de risco hídrico. Está faltando água nas usinas, não conseguimos produzir mais. Não dá para comparar energia nuclear com solar e eólica, porque a nuclear é energia de base, ou seja, quando você quer, ela está sempre lá. Diferente da solar e da eólica, que não são melhor nem pior, mas que sofrem variações.

Então, precisamos de dois leques. Mas quem cumpre o papel das usinas de base, que seguram o sistema como um todo, são as hidrelétricas com reservatório, as térmicas a gás, óleo ou carvão, e a térmica nuclear.

A energia nuclear é competitiva, em termos de preços, com outras fontes?
Se você olhar, não tem competição de energia nuclear com eólica e solar porque não dá para resolver o problema do mundo com eólica e solar, não existe essa hipótese, porque elas oscilam muito, apesar de serem boas e terem suas utilidades.

Está faltando água nos reservatórios, porque eles perderam a capacidade acumulada com o passar dos anos e não têm se recuperado como deveriam. Temos que apelar para a energia térmica. Usamos muita energia térmica baseada no gás.

O que aconteceu no período seco? A energia chegou a R$ 700 ou R$ 900 o MWh. Muito maior que o valor de Angra 3, que será de R$ 480 o MWh em 2026. Temos que entender isso: uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O setor apoia um parceiro privado na Eletronuclear?
Sim, claro. Todos estão otimistas. A gente espera que o novo governo coloque os editais de Angra 3 o mais rápido possível na rua. Isso já vai ser um grande salto.

As empresas privadas já são sócias da Abdan e querem contribuir com o término das obras de Angra 3. São exemplos disso a empresa russa Rosatom, a francesa EDF, a Framatome, que faz parte do mesmo grupo da EDF, que também está aqui e demonstrou interesse. A norte-americana Westinghouse e a chinesa CNNC (China National Nuclear Corporation) também já estão no Brasil.

É importante dizer que, no fim do ano passado, foi publicada a política nuclear, que era algo que estava faltando ser regulamentado há anos. Foram formados vários grupos de trabalho conduzidos pelo Gabinete de Segurança Institucional sobre os mais diversos temas possíveis. Alguns deles já concluíram os trabalhos e alguns ainda estão para concluir, ou foram criados há pouco tempo. Vemos agora, efetivamente, o formato de uma política para o setor, o que irá atrair novos investidores.

Como está o setor de energia nuclear desde a paralisação de Angra 3, em 2015? 
O setor ficou muito parado. Não só a Eletronuclear, porque ela é a maior consumidora de combustível nuclear por conta de Angra 1 e Angra 2, mas a cadeia produtiva como um todo: a própria INB, que produz combustível, ficou sem investimentos para aumentar a produção.

A mina de Caetité, de onde se tirava minério [urânio], está paralisada há muitos anos. Então também não se tirava o minério para processar. A indústria como um todo ficou muito parada nesse tempo.

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Após o tempo ocioso que o setor viveu, a indústria está preparada para fornecer os serviços necessários com a retomada dos investimentos?
Para o que se tem no momento, sim. Mas precisamos acelerar o processo de produção e formação de mão de obra muito rapidamente, porque se não, em breve, não será suficiente. Houve um envelhecimento do setor e muita gente se aposentou. E, naturalmente, vamos precisar de parcerias com empresas, tanto estrangeiras quanto daqui.

Além da área de energia, quais os outros setores que desenvolveriam a cadeia nuclear?
Do fim de 2017 para cá, o setor começou a reaquecer, antes de termos a retomada da área de energia nuclear. E isso ocorreu por uma série de ações. Por exemplo, a Marinha avançou com o programa de submarinos. Óbvio que o que está andando mais rápido são os submarinos convencionais, que não têm nada a ver com a parte nuclear.

Mas o projeto de submarino de propulsão nuclear avançou muito. Tanto que um laboratório chamado Labgene (Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica), que fica em Iperó (SP), no ano passado, começou não a parte nuclear, mas a parte da turbina e muitas coisas não só foram montadas, como foram testadas. Então, isso avançou muito.

A Amazul (Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A), que é a empresa vinculada à Marinha, contratou praticamente todos os engenheiros nucleares formados pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Por concurso, vários já entraram e outros estão entrando aos poucos. Então, teve uma movimentação muito grande nesse sentido. Foi uma coisa muito interessante.

Ano passado, o RMB (Reator Multipropósito Brasileiro), que vai poder produzir radiofármacos (porque hoje quase tudo é importado), vai ser usado não só na detecção de câncer, mas de outras doenças também, vai poder produzir isso aqui no Brasil. Isso movimentou mais ainda a indústria.

A mina de Caetité, que estava parada, começou a ter testes operacionais. Ainda não está funcionando, mas começou a ter testes operacionais para começar a funcionar.

Quais as medidas mais urgentes?
A palavra de ordem, agora, é: acabar Angra 3 e formar mais gente. Começar um processo de formação de mão de obra para o futuro. E vamos apoiar a iniciativa do governo, para que o programa nuclear conduzido pelo Gabinete de Segurança Institucional avance.

Fala-se que apenas um terço do território brasileiro passou por pesquisas para verificação de novas minas. Esse dado é correto?
É verdade. O Brasil é o sexto maior país em termos de reservas de minério [urânio] descobertas, mas apenas um terço do território foi varrido. Tem muita coisa ainda para ser explorada. A gente pode especular que haja muito mais pelo território.

Junto do urânio, normalmente, tem materiais que são usados para construir painéis solares, partes das usinas eólicas e uma série de produtos de altíssima qualidade. Nós temos uma reserva mineral muito grande. Mas isso não adianta nada se não usarmos com sabedoria. Precisamos fazer isso acontecer.


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